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Duplo desafio para as missões de paz da ONU: Covid-19 e manter as tropas

Nos acampamentos militares, as quarentenas são aplicadas àqueles que obtiverem resultados positivos, que somavam seis em 6 de abril

Agência France-Presse
postado em 08/04/2020 19:00
 (foto: Breno Fortes/CB/D.A Press)
(foto: Breno Fortes/CB/D.A Press)
Nos acampamentos militares, as quarentenas são aplicadas àqueles que obtiverem resultados positivos, que somavam seis em 6 de abrilA ONU enfrenta um duplo desafio para seus 110.000 soldados de paz em cerca de 15 operações no mundo: protegê-los da pandemia de COVID-19 e sobretudo, evitar a retirada de suas tropas.

Um dos temores é "um efeito de debandada", porque os países "podem ter a preocupação legítima de dizer ;não vou permanecer neste lugar; ou ;não deixarei meus homens porque, se estiverem contaminados, não serão bem tratados;", resumiu um diplomata da agência sob condição de anonimato.

Em entrevista à AFP nesta quarta-feira, o vice-secretário-geral das Nações Unidas para operações de paz, Jean-Pierre Lacroix, disse que ainda "não havia recebido pedidos de repatriação devido à COVID-19". Mas "é mais essencial do que nunca continuar nosso compromisso coletivo com a paz", acrescentou.

Antecipando a chegada do vírus nos países onde as forças de paz estão posicionadas, a ONU paralisou seus rodízios desde 6 de março, uma decisão estendida até 30 de junho.

Nos acampamentos militares, as quarentenas são aplicadas àqueles que obtiverem resultados positivos, que somavam seis em 6 de abril.

Também foram tomadas medidas de precaução para as patrulhas, para que "os soldados não se contaminem e não contaminem as populações locais", informou a ONU. A contaminação por cólera da população haitiana, com cerca de 10.000 mortos em 2010, por soldados nepaleses permanece na memória.

"Faremos o possível para garantir que nosso pessoal não seja um vetor de contágio", afirmou Lacroix, referindo-se a "rígidos padrões de higiene" e a um mínimo " contato físico com a população".

Enquanto a África - que concentra uma série de missões, como as do Mali, República Centro-Africana, Sudão do Sul, Darfur, República Democrática do Congo - espera ser gravemente atingida pela pandemia nas próximas semanas, o compromisso da ONU é sobretudo manter a paz.

- "Cultura do efêmero" -
Medidas contra a doença "têm impacto nas operações", admitiu um diplomata sob condição de anonimato.

No entanto, é absolutamente necessário segui-las para evitar "um desastre total se as operações entrarem em colapso com a saída dos Capacetes Azuis", acrescentou outro diplomata, também em anonimato.

Precisamos "proteger nossas equipes e sua capacidade de continuar suas difíceis operações", confirmou Lacroix.

Com essa lógica, o secretário-geral da ONU, António Guterres, solicita desde 23 de março um "cessar-fogo global e imediato" nos países em conflito. O pedido também busca incentivar os países que contribuem com contingentes a não retirar suas tropas.

A União Europeia (UE), importante provedora de policiais e militares, apoiou na terça-feira a manutenção de tropas em missões de paz, prometendo não repatriar as suas.

"Gostaríamos de enfatizar que, apesar da pressão que a pandemia exerce sobre nossos sistemas, continuamos mais envolvidos do que nunca na ação das forças de manutenção da paz em todo o mundo", reafirmou a UE em mensagem ao chefe da ONU.

Alguns diplomatas querem acreditar em uma resposta africana à pandemia que poderia "surpreender" o Ocidente e facilitar a manutenção dos soldados.

[SAIBAMAIS]No Ocidente, "o homem tornou-se suficiente, pretensioso", o que explica "sua angústia ainda maior ao enfrentar uma crise como a atual", disse um diplomata africano, que mencionou a experiência da África com o ebola e a grande epidemia de sarampo que atualmente afeta a República Democrática do Congo.

Os africanos são mais fortes em termos de resiliência mental, têm uma cultura do efêmero, fé em Deus, no deus muçulmano, no deus cristão, e essa será a força deles", previu, destacando também o senso de solidariedade "muito mais desenvolvido" no continente africano do que no mundo ocidental.

Falando em "um impacto particularmente grave" esperado nos países que abrigam as forças de paz, devido à deficiente infraestrutura de saúde pública e à fragilidade da coesão social, Lacroix prefere manter a esperança. "O que é encorajador é que estamos um passo à frente do vírus na maioria desses locais onde se encontram nossas forças de paz", disse ele.

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