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A covid pode ter vindo para ficar, alerta OMS

Diretor de emergências da agência das Nações Unidas afirma que os países têm um longo caminho até o fim da pandemia. Também admite a possibilidade de que o Sars-CoV-2 não desapareça e que o mundo tenha que aprender a conviver com ele

postado em 14/05/2020 04:05
Trabalhadores lavam rua em Bogotá antes de desinfecção: pandemia pode levar entre quatro e cinco anos para ser controlada, segundo especialista

A covid-19 pode nunca desaparecer, alertou, ontem, a Organização Mundial de Saúde (OMS). Autoridades da instituição internacional declararam que, mesmo com o desenvolvimento de uma vacina, a enfermidade provocada pelo vírus Sars-CoV-2 pode se tornar um problema de saúde permanente, assim como o HIV. De acordo com a agência das Nações Unidas, poderão ser necessários de quatro a cinco anos para controlar totalmente a infecção.

;Temos um novo vírus que atingiu a população humana pela primeira vez e, portanto, é muito difícil prever quando o venceremos;, declarou Michael Ryan, diretor de emergências da OMS, durante uma teleconferência para a imprensa, realizada em Genebra. ;Talvez esse patógeno se torne outro vírus endêmico em nossas comunidades, e, talvez, nunca desapareça. O HIV não desapareceu;, detalhou o virologista irlandês.

Em outra conferência digital, Soumya Swaminathan, principal cientista da OMS, disse que a contenção da pandemia pode demorar muito mais tempo do que se imagina. ;Eu diria que dentro de um período de quatro a cinco anos poderíamos estar controlando isso;, destacou a especialista durante um evento promovido pelo jornal britânico Financial Times. A cientista também destacou que ;não há bola de cristal; e que a pandemia pode ;potencialmente piorar;.

Para os especialistas da OMS, a vacina é uma das melhores opções para combater a pandemia, mas não garante que a doença seja totalmente exterminada, já que o vírus pode sofrer mutações que façam a imunização perder o efeito. Além de não existir a garantia de que todas as pessoas se imunizem. ;Somente a varíola foi eliminada e erradicada como uma doença humana;, declarou Peter Piot, professor de saúde global da Escola de Higiene e Medicina Tropical de Londres, durante o debate realizado pelo jornal.

Testes

Outro ponto essencial para conter a pandemia, segundo Piot, é a testagem. ;À medida que avançamos para a próxima fase da pandemia, o teste é essencial. Não existe opção senão investir mais em testes;, frisou. Segundo ele, os países devem pensar na covid em termos de anos, não meses. ;Teremos de encontrar uma maneira de as sociedades viverem com isso, e mudar as quarentenas para períodos direcionados, que sejam bem planejados;, detalhou.

Outra preocupação da OMS é relacionada ao fim das quarentenas, que já começam a ser relaxadas em muitos países. De acordo com Michael Ryan, ainda há um ;longo caminho a percorrer; para voltar ao normal. ;Acredita-se que os confinamentos funcionam perfeitamente e que o desconfinamento será genial. Mas eles são cheios de riscos;, advertiu o virologista.

;Muitos países gostariam de encerrar as diferentes medidas de confinamento. Mas nossa recomendação é de que as nações ainda mantenham o alerta no nível mais alto possível;, observou Tedros Adhanom Ghebreyesus, diretor da OMS.

Marli Sartori, infectologista do Hospital Santa Lúcia, em Brasília, concorda com o prognóstico de que a covid-19 possa se manter por muito tempo, mesmo com vacinas disponíveis. ;Temos a expectativa da vacina, que ajudará bastante, mas também precisamos considerar que mesmo outras enfermidades, como a influenza e o H1N1, se mantêm circulando, apesar de termos imunizações para elas;, frisou a médica, membro da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI).

Para a especialista, muitos outros fatores precisarão ser considerados durante a imunização da população. ;A mutação do vírus é realmente um problema, que também ocorre na gripe. Pode ser que tenhamos que fazer novas vacinas a cada período para a covid-19, assim como fazemos com ela. Outro fator é o preço, ela não pode ser cara. Na H1N1, por exemplo, nós priorizamos o paciente mais velho, que tem mais risco. São pontos que vamos ter que aprender com o tempo;, assinalou.

"Temos um novo vírus que atingiu a população humana pela primeira vez e, portanto, é muito difícil prever quando

o venceremos. Talvez, esse vírus se torne outro vírus endêmico em nossas comunidades, e, talvez, nunca desapareça. O HIV não desapareceu;

Michael Ryan, diretor de emergências da OMS

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