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Correio Braziliense

Covid-19: OMS admite que a situação na América do Sul é preocupante

Organização Mundial da Saúde admite ''muita preocupação'' com o aumento do número de casos de contágios pelo novo coronavírus em países da região e destaca o Brasil. Cidadãos infectados relatam drama ao Correio. Colômbia registra cifras recordes em 24 horas


postado em 23/05/2020 07:00

Enterro em uma das covas recentemente abertas para receber vítimas da covid-19 no Cemitério Vila Formosa, em São Paulo: imagem simbólica(foto: AFP / NELSON ALMEIDA)
Enterro em uma das covas recentemente abertas para receber vítimas da covid-19 no Cemitério Vila Formosa, em São Paulo: imagem simbólica (foto: AFP / NELSON ALMEIDA)
Mais de 575 mil casos e pelo menos 29,3 mil mortes — 21.048 no Brasil. Enquanto os números do novo coronavírus cresciam na região, Michael Ryan, diretor de emergências da Organização Mundial da Saúde (OMS) admitia: “A América do Sul se tornou o novo epicentro da doença”. “Vemos o número de casos aumentar em numerosos países sul-americanos. Há muita preocupação em torno desses países, mas, claramente, o mais afetado no momento é o Brasil”, comentou. Depois do Brasil, o Peru registra o maior número de casos (111.698) e de óbitos (3.244), seguido de Chile (61.857 infectados e 630 mortos), Equador (35.828 e 3.056) e Colômbia (19.131 e 682).

 

Morador de Santiago, o analista de sistemas chileno Sócrates López Baquedano, 48 anos, faz parte das estatísticas. Ele começou a apresentar os sintomas no último dia 14 e, cinco dias depois, recebeu o teste positivo. “Tive muito medo. Quando soube que estava infectado, fiquei em choque. O principal temor se deve ao fato de toda a minha família ter contraído o vírus: minha mulher, minha sogra e dois de meus cinco filhos, que ainda vivem conosco, de 18 e de 22 anos. Com certeza, se infectaram antes de eu saber que estava doente”, contou ao Correio.

 

Segundo Sócrates, a preocupação maior é com a sogra, de 75 anos. “Por sorte, eles estão bem, com sintomas mais amenos do que os meus. Os mais angustiantes, para mim, são a tosse incontrolável e as dores musculares.” Ele recomenda a quem teve a sorte de não ser contagiado que obedeça à quarentena, lave bem as mãos e, ao chegar em casa, tire toda a roupa e entre diretamente no banho.

 

Em Guayaquil, a segunda maior cidade do Equador e a mais castigada pela covid-19, a professora María José Jiménez, 35, sofreu dois golpes sucessivos. No fim de março, contraiu o novo coronavírus. Apesar da doença, foi demitida. “Estou com muito medo. Meu bebê tem 9 meses, meus pais moram comigo e ambos são hipertensos e diabéticos. Depois que me despediram, foi muito duro e difícil, e tive ataques de pânico”, disse à reportagem.

Maria José afirma que a covid-19 é uma doença muito séria, que afeta tanto o físico quanto o emocional. “Penso que muitas mortes foram produto de enfarte por ataque de pânico. Em meu país, eu soube de muita gente que morreu por não encontrar oxigênio ou atenção médica urgente”, lamentou. Ela lembrou que a pandemia do novo coronavírus deu três golpes muito duros no país: no sistema de saúde; no campo do trabalho, com milhares de desempregados; e na educação, pois há colégios que nem sequer têm 10% de alunos matriculados.”

 

Também no Equador, Carmén Márquez, uma vendedora de empanadas de 56 anos, viu a covid-19 levar o filho, Favio Joel Jaramillo Márquez, 27 anos, e a mãe dela, Carmen Alban, 82. “Eles morreram em um intervalo de oito dias. Ainda não tinha assimilado a perda do meu filho. Ainda que sinto que está vivo, assim como a mamãe. É tudo muito lamentável. Não se pode chegar a Guayaquil. Por isso, não pude ajudar minha família nem se despedir dos dois”, desabafou ao Correio a moradora da cidade de Libertad, a 127km de Guayaquil. “Nem sequer pude estar com eles quando morreram. Mamãe faleceu no hospital.” O corpo de Favio ficou dois dias em casa até que fosse levado pelo Serviço Médico Legal de Guayaquil. “A covid-19 é a maior provação dos nossos tempos. Uma prova de humanidade, de nossa ideologia e do valor que damos às nossas vidas”, comentou.


Vizinhos brasileiros

 

No dia em que os peruanos tiveram quase 3 mil novas infecções e 96 mortes, o presidente Martín  Vizcarra prorrogou o confinamento até 30 de junho, assim como o estado de emergência, o qual terminaria amanhã. “Estamos prorrogando o estado de emergência até 30 de junho e estabelecendo metas em todos os aspectos”, declarou. “O isolamento social obrigatório é mantido, em razão das graves circunstâncias que afetam a nação devido à covid-19. A quarentena é para evitar a propagação do vírus”, anunciou. A Colômbia atingiu, ontem, as cifras mais altas de óbitos (30) e de contágios (801) em 24 horas. Pouco antes da divulgação do balanço, o presidente Iván Duque anunciou a chamada “Missão Amazonas”, um plano do governo para a região fronteiriça com o Brasil onde há mais infectados. Ele revelou que 49% das mortes no país foram de idosos com mais de 60 anos e ressaltou a importância de manutenção de protocolos de biossegurança.

Na quinta-feira, Vizcarra, Duque e os colegas Sebastián Piñera (Chile) e Luis Alberto Lacalle Pou (Uruguai) participaram de uma reunião por videoconferência para debater desafios e ações na América do Sul para enfrentar o novo coronavírus. O encontro virtual contou com a participação de Luis Almagro, secretário-geral da Organização dos Estados Americanos (OEA). 

 

» Eles contraíram a covid-19 

 

Sócrates López Baquedano, 48 anos, analista de sistemas, morador de Santiago (Chile)

“Comecei com uma tosse desde quinta-feira da semana passada. No domingo, tive muita febre, mais de 39 graus. Muitos calafrios, e a tosse persistia. Fui ao pronto-socorro e me submeteram ao teste de PCR. Mandaram que eu fosse para casa e, dois dias depois, me enviaram o resultado positivo. Ainda tenho medo. Ontem (quinta-feira) à noite, fiquei muito mal e precisei retornar ao hospital. Por sorte, meus níveis estavam bem. Eles me estabilizaram, fizeram mais exames e me deram alta.”

 

Maria José Jiménez, 

35 anos, professora, moradora 

de Guayaquil (Equador)

“Os sintomas tiveram início em 29 de março. A garganta e a cabeça doíam. Meu noivo e eu tivemos febre uma semana antes e me isolei nos meus sogros. No segundo dia, minha garganta doía, um médico examinou-me e disse que era faringite. No dia seguinte, tive febre, calafrio, dores pelo corpo e perdi o olfato e o paladar — isso durou 12 dias. No sexto dia, os resultados indicaram positivo. Sofri ataque de pânico. Não podia respirar, mas era por causa do pânico. Mediaram meus níveis de oxigênio e estavam normais. Continuei com sorologia positiva por 48 dias.”

 

Adriana Real, 20 anos, estudante, moradora de Guayaquil (Equador)

“Eu tive covid-19 nos primeiros dias de março. Não apresentei maiores sintomas: dores de cabeça, estomacal e nos ombros. Até então, não se sabia que eram sintomas de covid. Eu não sabia que estava infectada, mas decidi me submeter ao teste porque minhas irmãs regressaram da Espanha, onde elas estudam. Todas realizamos a testagem e saímos limpas. Fui a única de casa que teve covid-19. Fui infectada por uma pessoa que trabalhava em minha casa. Durou quase um mês

para que eu me sentisse bem.” 

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