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Correio Braziliense

Coronavírus domina debates na volta à campanha presidencial nos EUA

Em discurso no ''Memorial Day'', Trump promete derrotar o novo coronavírus e levar o país para ''colinas mais altas''. O ex-vice-presidente democrata Joe Biden faz a primeira aparição pública desde março e saúda profissionais da área da saúde


postado em 26/05/2020 06:00

Trump e a mulher, Melania, desembarcam do helicóptero Marine One, após visita a Fort McHenry (Baltimore)(foto: AFP / Nicholas Kamm)
Trump e a mulher, Melania, desembarcam do helicóptero Marine One, após visita a Fort McHenry (Baltimore) (foto: AFP / Nicholas Kamm)
De um lado, o presidente norte-americano, Donald Trump. Depois do fim de semana em que tentou passar a imagem de tranquilidade e, inclusive, aproveitou para jogar golfe, o republicano discursou, ontem, durante o “Memorial Day”, em Baltimore (Maryland). “Juntos, venceremos o vírus, e os Estados Unidos levantar-se-ão dessa crise para novas e mais altas colinas”, declarou. De outro lado, o ex-vice-presidente democrata Joe Biden. Na primeira aparição pública desde 15 de março passado, ele depositou uma coroa de flores em um monumento no Parque Memorial dos Veteranos, em New Castle (Delaware). 

O adversário de Trump nas eleições de novembro, e a mulher, Jill, usavam máscaras de cor preta. “É bom estar fora da minha casa”, declarou, ao explicar que o casal só tem saído para caminhadas ou passeios de bicicleta esporádicos. Além da visita-surpresa, os Biden divulgaram um vídeo em homenagem aos profissionais da saúde e aos militares. “Este ‘Memorial Day’ oferece a cada um de nós a chance de refletir sobre a enormidade do sacrifício deles”, escreveu Joe Biden.

Também pelas redes sociais, o atual inquilino da Casa Branca provocou o rival. “O sonolento Joe Biden ficou louco quando bani, no fim de janeiro, pessoas que vinham da China. Ele me chamou de ‘xenófobo’ e, então, ficou igualmente ‘doido’ quando deixamos entrar 44 mil pessoas — até que lhes dissessem que eram cidadãos americanos, voltando para casa. Mais tarde, ele se desculpou”, publicou no Twitter. A reaparição de Biden e o novo ataque de Trump sugerem que, apesar da pandemia do novo coronavírus, a campanha eleitoral retornou aos trilhos.

Especialistas

Professor de direito da Universidade de Yale (em New Haven, Connecticut), Bruce Ackerman explicou ao Correio que, ao visitar o memorial em Delaware, Biden buscou honrar os americanos que arriscaram a vida para cuidar das vítmas da covid-19.  “É notável que ele não tenha nem mesmo informado a imprensa de suas intenções, antes de chegar ao local. Trump tem se engajado em performances diárias de mídia, apostando em falsidades óbvias para proclamar o seu ‘sucesso’, apesar das mortes de quase 100 mil americanos”, afirmou.

Para Ackerman, apesar da “passividade” de Biden, Trump pagará um alto preço em novembro. “Não apenas amigos e familiares dos mortos reconhecem a culpabilidade de Trump. Os EUA não vão se recuperar do enorme desemprego causado pela crise. Dezenas de milhões de norte-americanos estão sendo expulsos do mercado de trabalho, e, com razão, responsabilizarão o presidente pela maior crise econômica desde a Grande Depressão”, comentou. “Temos todas as razões para esperar que os eleitores votem por Trump fora da Casa Branca. Algumas pesquisas sérias apontam para uma clara vitória de Biden.”

Por sua vez, o historiador político James Naylor Green, professor da Universidade Brown (em Rhode Island), aposta que a eleição de novembro será sobre dois temas específicos: o novo coronavírus e a economia. Ele afirmou que Trump tem sido um desastre em ambos os temas. “A menos que algo muito incomum aconteça, ele perderá a eleição. Uma indicação é a de que eleitores com mais de 65 anos, tradicionalmente republicanos, estão se mudando para Biden. É um sinal muito ruim para Biden”, disse.

Green admite que o magnata republicano tem incentivado que os EUA retornem ao status quo anterior ao da pandemia. “Como um baixo percentual da população foi infectado e adquiriu imunidade, quanto mais houver interação social, maiores serão os números de contágios e de mortes”, lembrou. Segundo ele, os estados republicanos que retomarem as atividades econômicas de modo prematuro registrarão mais óbitos.”Provavelmente, veremos um aumento nos casos de infecção no verão (junho a agosto), seguido por nova onda de contágios no outono (setembro a novembro). Com medo de sair, as pessoas consumirão menos e terão pouco dinheiro por estarem desempregadas.”

Pontos de vista


» Por Bruce Ackerman

Sobre freios e contrapesos

“A grande questão, a partir de agora, é se Joe Biden fracassará na adoção de medidas sérias para revigorar o sistema constitucional de ‘freios e contrapesos’, que tem sido violado sistematicamente por Donald Trump ao longo dos últimos quatro anos. Se Biden permanecer passivo, os norte-americanos poderão enfrentar outra campanha presidencial em 2024, na qual um demagogo nacionalista tentará impulsionar os Estados Unidos rumo a uma ditadura autoritária.”


Professor de direito da Universidade de Yale (em New Haven, Connecticut)



» Por James N. Green

Aposta na economia

“Trump pretende que a eleição de novembro seja sobre a economia e sobre a promessa de que consertará a alta taxa de desemprego, devolvendo os postos de trabalho às pessoas. Ele promete que as coisas começarão a parecer boas no terceiro trimestre (julho a setembro) e melhorarão bem antes da eleição. O presidente espera que os números mostrem empregos novos, a fim de argumentar que somente ele poderá manter o renascimento econômico. Mas, ele tem um problema: o vírus — que não é republicano nem democrata.”

Historiador político da Universidade Brown, em Rhode Island

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