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De prontidão para o combate

Ao receber oficiais do Exército de Libertação Popular, durante o Congresso Nacional do Povo, o presidente Xi Jinping ordena preparação para a batalha e o enfrentamento dos "piores cenários". Determinação coincide com o aumento da tensão no território de Hong Kong

postado em 27/05/2020 04:05
Xi Jinping discursa ante os mais de 3 mil delegados do Partido Comunista Chinês, no Grande Salão do Povo, no coração da capital

A reunião entre o presidente, Xi Jinping, e uma delegação do Exército de Libertação Popular ocorreu, ontem, durante o Congresso Nacional do Povo, na Praça da Paz Celestial, coração de Pequim. Xi, 66 anos, ordenou aos militares que ;pensem sobre os piores cenários, intensifiquem o treinamento e a preparação para a batalha, enfrentem rápida e eficientemente todo o tipo de situações complexas, e salvaguardem a soberania nacional, de modo decisivo;. O fortalecimento da defesa nacional foi colocado como prioridade para Xi, segundo o qual a pandemia do novo coronavírus teve profundo impacto sobre o mundo e na segurança e no desenvolvimento da China.

O líder ; que chegou a ser comparado a Mao Tsé-tung no Congresso do Partido Comunista Chinês (PCC), em 2017 ; não citou uma ameaça específica. No entanto, o pronunciamento de Xi coincide com a escalada de tensão com os Estados Unidos e com a apresentação de um polêmico plano de segurança nacional para Hong Kong. Pequim pretende proibir a secessão independentista, a subversão, o terrorismo e a interferência estrangeira no território. Ativistas pró-democracia veem o fim do status especial da antiga colônia britânica e do princípio constitucional ;um país, dois sistemas;.

Autor de Vigil: Hong Kong on the Brink (;Vigília: Hong Kong por um fio;) e historiador da Universidade da Califórnia, Irvine, Jeff Wasserstrom afirmou ao Correio que o mais recente discurso de Xi se enaixa em um padrão. ;Por muitas vezes, Xi se esforça para projetar uma imagem de uma China forte e realizadora de façanhas impressionantes, sob sua supervisão. Mesmo que o país enfrente grandes desafios e precise lidar com grandes potências que lhe foram injustas no passado e que continuam buscando miná-lo;, explicou.



De acordo com o estudioso, o crescimento econômico da China sofreu desaceleração nos últimos anos e foi bastante impactado pela pandemia. ;Desde a acensão de Xi ao poder, em 2013, o Partido Comunista Chinês tem usado a economia e argumentos ancionalistas para legimitar o seu poder. As lideranças do Partido Comunista Chinês ressaltam a ideia de que, somente sob a tutela de Xi, a economia da China cresceu e a nação recuperou o seu lugar central na ordem global.

Para Fengsuo Zhuo, sobrevivente do massacre da Praça da Paz Celestial, em 4 de junho de 1989, a meta de longo prazo do PCC envolve a dominação mundial. ;Xi incorpora essa ambição do regime. A paz somente virá quando a China for democratizada;, comentou. Ele acredita que o PCC somente confia na força bruta, ;como quando usaram tanques contra manifestantes pacíficos;. ;Os Estados Unidos têm tirado vantagem desse discurso, mas estão despertando para os danos, esperando que não seja tarde demais para proteger os interesses americanos. Haverá mais confrontações;, disse à reportagem.



A jornalista e ativista Rose Tang, outra sobrevivente do massacre da Praça da Paz Celestial e moradora de Hong Kong entre 1997 e 2003, teme que Xi esteja enviando uma mensagem ao movimento pró-democracia da cidade semiautônoma. ;Ele deixou claro para Hong Kong: ;Obedeçam ou serão mortos;. Nunca foi intenção do PCC permitir a democracia, o capitalismo e a liberdade no território;, desabafou ao Correio. Rose questiona qual o pior cenário temido por Xi. ;Seria uma Guerra Fria? Um confronto militar? Acho que a manobra do presidente é uma indicação de que ele vê um blefe de Donald Trump. Os dois líderes se engajam em um jogo de culpabilidade sobre a origem e a disseminação da covid-19.;

Segundo a ativista, o endurecimento da retórica da Xi contrasta fortemente com o crescimento negativo da China no primeiro quadrimestre de 2020, com o encolhimento de 6,8 pontos percentuais do Produto Interno Bruto (PIB). ;Sua declaração também desafia a segunda onda de pandemia da covid-19, que começou no nodeste do país. Em vez de declarar vitória sobre o novo coronavírus, Pequim adotou a diplomacia agressiva do ;lobo combativo;. Xi se recusa a escutar o povo de Hong Kong e flexiona os músculos ante o mundo;, acrescentou Rose.
Decepção



A Casa Branca informou, ontem, que o presidente Donald Trump está ;decepcionado; com os planos da China de impor uma lei de segurança nacional em Hong Kong e vê em xeque o futuro do território como centro financeiro do planeta. ;É difícil ver como Hong Kong pode continuar sendo um centro financeiro se a China assumir o controle;, declarou a porta-voz Kayleigh McEnany, ao ressaltar que o aviso veio diretamente de Trump.



  • Corrupção, uma praga no país

    O número de pessoas julgadas por corrupção na China quase dobrou em 2019 (90%), de acordo com relatório do Ministério Público divulgado ontem, com a campanha de fortalecimento disciplinar do presidente Xi Jinping como pano de fundo. Inúmeros funcionários do Partido Comunista Chinês foram demitidos desde 2013 e desde o lançamento, com a ascensão de Xi ao poder, da ;Operação Mãos Limpas;. No ano passado, 18.585 pessoas foram processadas por corrupção, ou seja, 90% a mais em relação ao ano anterior. Em 16 casos, políticos de primeiro escalão, entre eles chefes provinciais e ministros, estavam envolvidos. Em 2019, houve cerca de 25 mil ações judiciais por corrupção, desvio de fundos ou subornos, nos quais quase 29 mil pessoas foram condenadas, de acordo com o Ministério Público.



  • Palavra de especialista


    Nacionalismo e virilidade

    ;Quando o argumento econômico é ameaçado, o Partido Comunista Chinês coloca mais ênfase no nacionalismo. O presidente Xi Jinping gosta de projetar uma imagem de si mesmo como um governante culto. Isso se evidencia nas frequentes referências aos livros que ele aprecia e no interesse pelos valores confucionistas. Ele também gosta de transmitir a noção de homem forte, algo exibido por meio do prazer em presidir paradas militares e do discurso secreto proferido no começo da gestão ; na ocasião, Xi se referiu ao fato de a União Soviética ter desaparecido pelo fato de seus líderes não terem sido ;viris; o bastante para manter a nação coesa.

    O mais recente discurso de Xi Jinping é um exemplo da ênfase nessa imagem de viralidade. O contexto sobre a nova lei de segurança nacional de Hong Kong se mostra importante, pois o Partido Comunista Chinês tem continuamenter reforçado a ideia de que os protestos ali são obra de agentes estrangeiros para minar Pequim, apesar de os ativistas contarem com vasto apoio popular e lutarem por causas locais.;


    Jeff Wasserstrom, autor de Vigil: Hong Kong on the Brink (;Vigília: Hong Kong por um fio;) e historiador da Universidade da Califórnia, Irvine


  • Eu acho...


    ; ;Xi Jinping sabe que o Partido Comunista Chinês é culpado de acobertar a pandemia do novo coronavírus. Os dirigentes do partido sabiam que a doença estava se espalhando por meio de contatos entre as pessoas, mas não agiram para impedir isso. Também censuraram denunciantes, como o médico Li Wenliang (morto pela covid-19).;

    Fengsuo Zhuo, sobrevivente do massacre da Praça da Paz Celestial, em 4 de junho de 1989 e opositor ao governo chinês


    ; ;A reunião de Xi Jinping com o Exército de Libertação Popular e a Polícia Armada é peculiar, pois o Congresso Nacional do Povo está prestes a votar sobre a Lei de Segurança Nacional de Hong Kong. Ela também ocorre menos de duas semanas antes do 31; aniversário do massacre da Praça da Paz Celestial, quando o Exército massacrou milhares de estudantes desarmados e civis.;

    Rose Tang, 50 anos, sobrevivente do massacre da Praça da Paz Celestial. Hoje, vive em Nova York

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