Publicidade

Correio Braziliense

Ideia de imposto para os mais ricos avança no Reino Unido

Existem 147 bilionários no país, e Londres é sua capital mundial


postado em 05/06/2020 13:14 / atualizado em 05/06/2020 13:16

Nesta foto de arquivo tirada em 28 de junho de 2016, o empresário britânico Richard Branson acena enquanto caminha pelas Casas do Parlamento no centro de Londres. (foto: Daniel LEAL-OLIVAS / AFP)
Nesta foto de arquivo tirada em 28 de junho de 2016, o empresário britânico Richard Branson acena enquanto caminha pelas Casas do Parlamento no centro de Londres. (foto: Daniel LEAL-OLIVAS / AFP)
E se os mais ricos fossem forçados a contribuir para a recuperação após a pandemia? A ideia está ganhando terreno no Reino Unido, um país conhecido por sua generosidade com as grandes fortunas, onde a crise da saúde ameaça exacerbar as desigualdades.

As consequências econômicas da crise da saúde são duras: desemprego em massa, falências em série, empobrecimento dos mais vulneráveis. 

Para os bilionários, porém, o novo mundo pode parecer muito com o antigo.

Os ativos das mil maiores fortunas do Reino Unido se reduziram em £ 54 bilhões (US$ 68 bilhões) em apenas dois meses pelo impacto da pandemia, mas permanecem em £ 743 bilhões.

Existem 147 bilionários no país, e Londres é sua capital mundial, liderada pelo inventor James Dyson, conhecido por seus aspiradores sem saco, com uma fortuna estimada em 16,2 bilhões de libras.

"O dinheiro continua chovendo no topo", diz Rowland Atkinson, professor da Universidade de Sheffield, no norte da Inglaterra, e autor do livro "Alpha City:How London Was Captured by the Super-Rich" ("Alpha City: como Londres foi capturada pelos super-ricos", em tradução livre).

Durante a crise de saúde, alguns bilionários foram acusados de quererem tirar proveito da ajuda pública, recorrendo a empréstimos, ou a sistemas de desemprego parcial.

A ONG Greenpeace acusou Richard Branson, fundador da Virgin, de não pagar impostos no Reino Unido há 14 anos e agora exigir que o governo salve sua companhia aérea Virgin Atlantic.

Em meio à pandemia de coronavírus, o espectro de uma nova década de austeridade surge após a causada pela crise financeira de 2008, que apenas reforçou as desigualdades em detrimento dos mais pobres.

Atualmente, o governo Boris Johnson está gastando dezenas de bilhões de libras para amortecer o choque e evitar danos sociais excessivos.

Com isso, o déficit vai disparar para quase 300 bilhões de libras em um ano, e seu financiamento será um pesadelo para os conservadores, que tradicionalmente relutam em tributar os ricos.

Ação radical

Desta vez, o governo terá dificuldade em não envolver os super-ricos no esforço nacional para evitar cortes excessivos nos serviços públicos, depois que trabalhadores de baixa renda, especialmente os do setor da saúde, arriscaram suas vidas na luta contra a COVID-19.

"No contexto atual, não vejo apoio político para mais cortes públicos", diz Arun Advani, professor da Universidade de Warwick, no centro da Inglaterra. 

"O governo mostrou que pode fazer algo radical agora, como financiar o desemprego parcial, ou apoiar os trabalhadores independentes. Estou otimista que fará novas propostas para aumentar os impostos" para os mais ricos, disse ele à AFP.

Uma pesquisa da YouGov divulgada em meados de maio mostrou que 61% dos britânicos são a favor de um imposto sobre as fortunas de mais de 750.000 libras.

Prova de que a ansiedade está aumentando, o jornal econômico "Financial Times" organizou uma sessão de perguntas e respostas para seus leitores no mês passado sobre a operação de um imposto sobre a riqueza, que atraiu um número recorde de comentários.

O professor Richard Murphy, da City University, de Londres, acredita que o governo tem muitas ferramentas à sua disposição para tributar os mais ricos sem, necessariamente, impor um imposto sobre a riqueza.

Simplesmente tributando mais a renda de capital, para colocá-la no mesmo nível da renda do trabalho, 174 bilhões de libras seriam depositados nos cofres públicos todos os anos. Isso financiaria amplamente o orçamento anual do sistema de saúde de cerca de 120 bilhões de libras.

Para Walter Scheidel, historiador da Universidade de Stanford, grandes desastres globais como guerras e pandemias podem fazer uma diferença profunda e reduzir as desigualdades.

Este poderia ser o caso do novo coronavírus, defendeu ele no início de abril, em um artigo no jornal americano "The New York Times".

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação

Publicidade