Publicidade

Correio Braziliense

Vídeo de agressão a idoso aumenta indignação com violência policial nos EUA

Vídeo de agressão a idoso, em Buffalo (Nova York), aumenta a indignação da sociedade com a violência policial. Autoridades de Minneapolis banem estrangulamento na abordagem de suspeitos. Protestos pelo assassinato de George Floyd continuam


postado em 06/06/2020 07:00

Na filmagem, o ativista Martin Gugino, 75 anos, é empurrado por dois policiais (E); ele cai de costas, bate a cabeça no chão e perde a consciência (C); depois, começa a sangrar, enquanto agentes tentam isolar o local (D)(foto: AFP PHOTO / WBFO NPR / Mike DESMOND)
Na filmagem, o ativista Martin Gugino, 75 anos, é empurrado por dois policiais (E); ele cai de costas, bate a cabeça no chão e perde a consciência (C); depois, começa a sangrar, enquanto agentes tentam isolar o local (D) (foto: AFP PHOTO / WBFO NPR / Mike DESMOND)
Martin Gugino, 75 anos, republicou o vídeo no Twitter por volta das 17h30 de quinta-feira (18h30 em Brasília): policiais disparam uma pistola Taser contra uma mulher branca e a golpeiam violentamente com um cassetete. Minutos depois, Gugino seria protagonista de outro vídeo, que provocou indignação em uma sociedade ávida por justiça e por medidas contra abusos da polícia. Nas imagens, o idoso aparece caminhando em direção a um grupo de policiais; logo depois, é empurrado por um dos oficiais, tomba de costas e bate a nuca no chão. Enquanto sangue escorre da cabeça da vítima, policiais gritam a um repórter: “Para trás!”. Gugino está hospitalizado em estado grave. Após o afastamento de dois policiais envolvidos no incidente, os 57 membros da Equipe de Resposta a Emergências do Departamento de Polícia de Buffalo se demitiram, em protesto. Autoridades policiais disseram que Gugino tropeçou e caiu. As imagens desmentem. 



O vídeo sobre a violência sofrida por Gugino surgiu na esteira do flagrante do assassinato de George Floyd, em Minneapolis. Em 25 de maio, o homem negro de 46 anos foi asfixiado por Derek Chauvin, um policial branco que ajoelhou-se sobre o seu pescoço.  Tudo foi filmado por testemunhas. O presidente Donald Trump não condenou a violência das forças de segurança. Em vez disso, usou o nome de Floyd em uma declaração polêmica. “Espero que George Floyd esteja olhando para baixo agora e dizendo que uma grande coisa está acontecendo para o nosso país. É um ótimo dia para ele e para todos”, disse o republicano, em alusão ao reaquecimento da economia norte-americana — o Departamento de Trabalho registrou mais 2,5 milhões de empregos em maio e uma redução da taxa de desemprego para 13,3%. 

Floyd foi um entre os milhares de norte-americanos mortos pela polícia. Entre 2013 e 2019, a organização Mapping Police Violence (“Mapeando a Violência Policial”) registrou 7.663 mortes de civis pelos agentes da lei. Apenas 48 policiais foram condenados. No ano passado, houve 1.098 civis abatidos pela polícia — 24% deles eram negros, apesar de serem apenas 13% da população.

Mudanças


Segundo Kenneth Roth, diretor executivo da organização não governamental Human Rights Watch, não fosse o flagrante da agressão a Gugino, dificilmente os dois policiais de Buffalo teriam sido afastados. “O fim da violência policial exige várias coisas, incluindo mudanças no treinamento e um sistema de supervisão policial mais incisivo, que seja absolutamente independente e tenha poder de interrogar e processar os agentes. Também demanda mudanças na doutrina judicial que tendem a proteger os policiais das consequências legais”, afirmou ao Correio.

Roth admite que a retórica de Trump apenas encoraja a brutalidade da polícia. “Em vez de tentar acalmar paixões, de enfatizar a necessidade de justiça racial e de prometer melhorar o sistema de justiça criminal, Trump denuncia os manifestantes e encoraja a polícia a tomar controle dos protestos. Ele até ameaçou convocar o Exército. É o oposto da autoridade moral que se deseja de um presidente”, lamentou.

As autoridades de Minneapolis anunciaram, ontem, um acordo para imediatamente banir estrangulamentos durante as abordagens policiais. “O funeral de George Floyd, ontem (quinta-feira), sublinhou que a justiça para ele exige mais do que punição para o homem que o matou — exige responsabilização da liderança eleita a profundas reformas estruturais”, declarou o prefeito Jacob Frey, por meio de nota.

Até ontem, o Manual do Departamento de Polícia de Minneapolis determinava que imobilizações pelo pescoço e estrangulamentos estavam reservados para situações de vida ou morte para os agentes. A partir de agora, a polícia será obrigada a cumprir com investigações sobre direitos civis. “O Conselho da Cidade de Minneapolis acaba de proibir estrangulamentos pela polícia. Por que isso já foi permitido?”, questionou Benjamin Crump, advogado da família de Floyd.

Ontem, um procurador do distrito de Nova York recusou-se a processar manifestantes detidos em Manhattan por crimes de baixo potencial ofensivo, como conduta desordeira e concentração ilegal. Por meio de um comunicado, Cyrus Vance disse que seu gabinete “se recusa a processar estes detidos no interesse da Justiça”. “Processar manifestantes acusados de ofensas de baixo potencial ofensivo enfraquece os vínculos críticos entre a aplicação da lei e as comunidades a que servimos”, acrescentou.

Uma rua para lembrar da luta

As letras garrafais e de cor amarela preenchem parte da 16th Street, uma das principais artérias de Washington que termina no Parque Lafayette e tem vista frontal para a Casa Branca. O letreiro “Black lives matter” (“Vidas negras importam”) foi pintado no asfalto por voluntários. A prefeita do Distrito de Colúmbia, Muriel E. Bowser, rebatizou a rua com o nome “Black Lives Matter Plaza” e encorajou os manifestantes a promoverem atos pacíficos no local. Uma placa de sinalização foi colocada sobre um semáforo. Na mesma rua, os sinos da Igreja de Todas as Almas tocaram por 8 minutos e 46 segundos, tempo que George Floyd levou para morrer, com o joelho do policial branco sobre seu pescoço. Apesar da chuva, manifestantes ajoelharam-se diante da igreja e permaneceram em silêncio.
Depoimento

Problema americano


“O assassinato de George Floyd ilustra várias políticas com a cultura da polícia dos Estados Unidos. Não havia necessidade de deter George por meramente passar uma suposta nota falsificada de US$ 20. Na pior das hipóteses, isso deveria ter levado a um interrogatório.

A morte de Floyd reflete o problema dos Estados Unidos com o encarceramento excessivo — enviar pessoas à prisão por pequenos delitos —, fenômeno que afeta desproporcionalmente os afro-americanos. A polícia, em vez de adotar uma política de redução de tensão, deliberadamente intensificou as abordagens para  mostrar que está no comando.

É assim que os policiais são treinados. Eles imaginaram que iriam se safar dessa violência excessiva, porque muitas vezes conseguem. Somente o vídeo mudou tudo. Os mesmos fatores contribuíram para o desnecessário empurrão da polícia contra Martin Gugino. Foi algo totalmente gratuito. Ele não representava ameaça. O policial apenas quis mostrar que estava no comando.”, Kenneth Roth, diretor executivo da Human Rights Watch (HRW).

Magnata celebra avanço contra pandemia

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, comemorou, ontem, o fato de que a pior parte da pandemia de coronavírus tenha ficado para trás no país. “Tínhamos a maior economia da história. E essa força permitiu-nos superar esta horrível pandemia, que já superamos, em grande medida. Acho que estamos indo bem”, declarou Trump, em uma entrevista coletiva na qual celebrou que o desemprego em maio tenha caído para 13,3%. Trump defendeu sua gestão da crise nos Estados Unidos — o país com o maior número de mortes por coronavírus, com mais de 108 mil. “Tomamos todas as decisões corretas”, acrescentou, pedindo aos governadores do estados que ainda têm medidas parciais de confinamento para que suspendam as restrições.

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação

Publicidade