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Fórmulas da pandemia

Pesquisas mostram que os impactos da covid-19 sobre os mais jovens são diversos, deixando-os em algumas situações até mais vulneráveis do que os adultos. Pais contam quais cuidados têm tomado para proteger os filhos durante a crise sanitária

postado em 14/06/2020 04:25
Cristina celebra aniversários e datas comemorativas para cuidar da saúde mental de toda a família:
Enfrentar o isolamento causado pela pandemia é difícil para todos, mas pode ser ainda mais complicado para crianças e adolescentes. Nem todos entendem ; e aceitam ; facilmente que é preciso ficar em casa, lavar as mãos regularmente e até mesmo não exagerar nos lanchinhos da tarde. Os impactos da covid-19 sobre os mais jovens são alvo de estudos científicos, que já indicam algumas peculiaridades. Na tentativa de ajudar pais e responsáveis, especialistas recomendam que eles incentivem os filhos a cuidarem da saúde e os mantenham informados sobre a crise sanitária.

Um dos primeiros cuidados é explicar que quem tem menos idade também pode ser infectado pelo coronavírus. E, assim como os adultos, crianças com outros problemas de saúde, como obesidade e diabetes, apresentam risco maior de serem acometidas por casos graves da covid-19. A descoberta foi feita por cientistas americanos que analisaram registros médicos de 50 jovens internados com a enfermidade. Dos pacientes, nove precisaram respirar por ventilação, sendo que seis eram obesos. ;Esse ainda é um estudo pequeno, mas vimos que também nos jovens existe risco associado à obesidade e à gravidade da covid-19;, afirma Philip Zachariah, pediatra da Columbia University Irving Medical Center, em Nova Iork, e principal autor do estudo, publicado, neste mês, na revista Jama Pediatrics.


Lorena Lima Amato, endocrinologista e endocrinopediatra pela Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), destaca que o cuidado com o peso durante o isolamento é extremamente necessário. ;Vemos em pesquisas o quanto a obesidade aumenta os riscos em pacientes com covid, e isso mostra como é importante combater o excesso de peso com a realização de exercícios e pela dieta. Há muitas pessoas dizendo que este não é o momento de fazer dieta, mas não é verdade, cuidar da alimentação ajuda a manter a imunidade;, enfatiza.

A especialista lembra que a ansiedade pode levar as crianças a comerem mais, o que exige uma atenção extra dos pais. ;É importante, por exemplo, manter horários para realizar as refeições. Dessa forma, vira uma rotina e impede que elas consumam mais do que o necessário;, indica. ;Outra medida é criar brincadeiras que façam elas gastarem energia, pois, além de ajudar a reduzir o peso, favorece no controle da ansiedade.;

Aline Neves, 39 anos, aposta na definição do horário para as refeições como estratégia de controle do apetite das filhas Lorena, 12 anos, e Lavínia, 14. ;A Lorena transfere a ansiedade para a comida. E outro problema é que nunca quer uma fruta, por exemplo, sempre quer um doce, uma bobagem. Devido ao autismo, fica ainda mais difícil controlar. Por isso, uso a estratégia de agendar essas refeições. Com isso, consigo evitar excessos.;

Outro recurso que tem ajudado a controlar a ansiedade de Lorena são as aulas de música. Ela é aluna de um projeto chamado Uma sinfonia diferente, voltado para crianças com autismo. ;Para elas, é mais difícil se concentrar. Por isso, as atividades rotineiras que podem ser feitas em casa não são suficientes. O que ela gosta muito são as aulas de música, as quais têm sido virtuais, agora. Ela consegue se distrair bastante e relaxar, tem ajudado muito;, conta Aline.

Ajustes à idade
Segundo especialistas, é importante os pais saberem que as crianças têm reações distintas às situações extraordinárias. ;Eles podem observar uma série de respostas, como maior curiosidade, medo ou falta de cuidado, que são comportamentos normais;, diz ao Correio Krystal Simmons, professora no Departamento de Psicologia Educacional na Universidade do Texas, nos EUA.

Segundo Simmons, o tipo de discussão que os adultos terão com os menores dependerá da idade e da personalidade de cada jovem. ;É claro que os cuidadores conhecem melhor o filho, mas temos diretrizes sobre como as crianças lidam, tendo com base o estágio de desenvolvimento em que estão.;

As menores não terão um entendimento completo dos eventos relacionados à pandemia. No entanto, podem perceber as emoções subjacentes demonstradas pelos adultos.;Elas tendem a expressar seus sentimentos nas brincadeiras. Por isso, é importante estar alerta a possíveis demonstrações de medo e tranquilizá-las.; Simmons explica que crianças de 6 a 8 anos têm pensamentos mais concretos e tendem a ter uma compreensão literal do impacto do vírus. ;Por isso, é importante abordar as discussões com crianças dessa idade de maneira clara, honesta e simplista.;

Entre os pré-adolescentes e os adolescentes, há uma melhor compreensão de conceitos como ansiedade e morte, o que facilita conversas mais profundas. ;No entanto, eles também podem acreditar que são invencíveis à infecção pelo vírus. Ter conversas francas, honestas e mais profundas pode ser apropriado nesses estágios de desenvolvimento;, diz.

Cristina Almeida, 37 anos, enfrenta a pandemia com três filhos em faixas etárias distintas e explica como as reações deles são diferentes. ;A Alice, de 9 anos, é a nossa maior, sempre entende que tem que ficar de máscara. Vemos que ela tem um nível de preocupação alto. Isso também gera alguns problemas, como a dificuldade de dormir bem durante a noite, ela fica ansiosa;, conta. ;Os outros dois, o Pedro, que tem 6 anos, e a Letícia, de 3, absorvem menos essa atmosfera, acredito que pela falta de maturidade. Mas, para eles, o problema é ficar em casa, o espaço menor pra brincar. Para a Alice, que é maior e gosta de atividades como desenhar e ler, essas atividades mais paradas são suficientes.;

A engenheira civil conta, ainda, que tem buscado tomar todos os cuidados para manter a saúde física e mental dos filhos. ;Sempre que temos uma data comemorativa, tentamos fazer algo. Nos aniversários, fazemos decorações com colagens, e, na Páscoa, foi a mesma coisa. É bom porque ajuda a distraí-los.;

Thiago Blanco, psiquiatra da infância e da adolescência, destaca que atividades feitas com todo os integrantes da famílias são essenciais durante o período de isolamento. ;É importante apreciar esses momentos, pois eles ajudam na autocompaixão, na solidariedade com o que o outro está sentindo. São medidas tão importantes quanto uma boa alimentação e a prática de exercícios físicos;, afirma. O psiquiatra destaca que, apesar de ser um momento difícil, as crianças podem ter uma ganho importante com a experiência. ;É claro que é uma situação complicada, que não queríamos estar passando, mas acredito que ela nos ajudará a ter mais recursos de enfrentamento, e isso poderá ajudar os jovens no futuro.;


Mais vulneráveis

A pandemia é ainda mais estressante para crianças e adultos com transtorno do espectro do autismo (TEA) e seus familiares, segundo AAdrien A. Eshraghi. Em um artigo publicado na revista The Lancet Psychiatry, o especialista e seus colegas da Universidade Miller School of Albemarle, nos EUA, explicam que pessoas com autismo podem correr maior risco de complicações com a covid-19 porque tendem a ter distúrbios imunológicos e outras comorbidades. Os especialistas também explicam, no artigo, que o processo de isolamento pode ser especialmente difícil para as crianças com TEA, que têm dificuldade em lidar com interrupções na rotina.



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