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Correio Braziliense

Do exílio, Evo Morales comanda partido na campanha eleitoral boliviana

O ex-presidente, 60 anos, costumava convocar os líderes do MAS para se reunirem com ele na Argentina, mas teve de suspender esses encontros, devido à pandemia


postado em 01/07/2020 13:38

Evo Morales.(foto: Cadu Gomes/CB/D.A Press)
Evo Morales. (foto: Cadu Gomes/CB/D.A Press)
De seu exílio em Buenos Aires, o ex-presidente Evo Morales continua a influenciar a política boliviana e, em meio à pandemia do novo coronavírus, dá as cartas em seu partido para as eleições de 6 de setembro.

"Neste momento em que Evo Morales está no exílio, fora do poder, ele se tornou uma espécie de grande eleitor", escreve o cientista político e professor universitário Carlos Cordero para a AFP.

Segundo Cordero, Morales (2006-2019) atua como um "grande eleitor", porque nomeou o economista Luis Arce como candidato presidencial do Movimento para o Socialismo (MAS), enquanto outros líderes e bases queriam o ex-ministro das Relações Exteriores aymara David Choquehuanca, ou o jovem líder "cocalero" Andrónico Rodríguez.

Embora não tenha impacto imediato nas fileiras partidárias, Arce aparece na liderança nas últimas pesquisas. Se esse apoio se confirmar nas urnas, o MAS recuperará o poder um ano após a renúncia de Morales.

Com 33,3%, Arce supera o ex-presidente de centro Carlos Mesa (18,3%), a presidente interina de direita Jeanine Áñez (16,9%) e os demais candidatos.

A socióloga María Teresa Zegada afirma que Morales é uma peça crucial nessa campanha eleitoral.

"Acredito que ele continuará nesse importante papel, enquanto continuar sendo um fator político polarizador no país. Há setores importantes que apoiam o MAS, e nisso está a presença de Morales", disse ele à AFP.

O ex-presidente, 60 anos, costumava convocar os líderes do MAS para se reunirem com ele na Argentina, mas teve de suspender esses encontros, devido à pandemia. Agora, envia linhas de ação para sua militância pelas redes sociais.

"Liderança messiânica"
 
Morales renunciou à presidência em novembro de 2019, depois de uma convulsão social contra sua polêmica reeleição um mês antes, em meio a denúncias de fraude.

As revoltas se espalharam pelo território, e os chefes das Forças Armadas e da Polícia retiraram seu apoio.

Isolado, Morales anunciou sua renúncia em seu reduto político, o Chapare "cocalero" no centro do país. Deixou a Bolívia, rumo a um asilo no México, que enviou um avião militar para buscá-lo. Em dezembro, mudou-se para a Argentina, onde obteve refúgio de seu aliado Alberto Fernández. 

Para Cordero, Evo Morales construiu uma "liderança messiânica", de modo que sua voz continua tendo peso, apesar do exílio. 

"Esses líderes se tornam profissionais da política, vivem da política e não sabem mais fazer nada além da política (...). A vida deles é simplesmente fazer política. Esse é o perfil psicológico dessas pessoas", acrescenta este professor da Universidade Católica.

Sem um nome para ofuscá-lo, Morales continua sendo a figura principal de sua legenda, que tem nos indígenas e nos camponeses sua base eleitoral.

"Temos uma figura gravitacional, mas ao mesmo tempo desgastada, e ele não é mais a figura que era quando ocupou a presidência do país", afirma Zegada, professora da Universidade Estadual de San Simón.

Ela explica que o ex-presidente se beneficiou dos erros e dos escândalos de seus adversários no poder, como as denúncias de compras superfaturadas de suprimentos médicos para a atual crise de saúde, envolvendo funcionários do governo Áñez.

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