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%u201CO presidente turco sinaliza para a recomposição geopolítica do Império Otomano%u201D

postado em 11/07/2020 04:14
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Um tempo de novas cruzadas

É bem mais que uma questão puramente religiosa o que está em jogo no último movimento formalizado ontem pelo presidente da Turquia. Por decreto, Recep Tayyip Erdogan transformou novamente em mesquita a antiga catedral dedicada à rainha Sofia, erguida pelos cristãos bizantinos em Constantinopla ; rebatizada como Istambul depois de conquistada pelos turcos.

A queda de Constantinopla, em 1453, assinala o apogeu do Império Otomano, que seria fator determinante na geopolítica global, em particular no Oriente Médio, até a derrota na Primeira Guerra Mundial (1914-1918). Desde então, a Turquia assumiu as vestes de uma república secular. Hagia Sophia, até então uma mesquita, tornou-se museu, templo ecumênico e símbolo de uma sociedade que se pretendia moderna ; no sentido europeu e ocidental.

Mapa em redesenho

Erdogan se perfila, é verdade, como exemplo de manual para a categoria do político islamista, segundo a denominação criada por acadêmicos para líderes e correntes ideológicas que militam pela (re)configuração do Estado sobre bases que preconizam como fiéis ao islã. Tal é o sentido do sufixo ;ista; aposto ao substantivo ;islã;: designar não tanto o fundamentalista religioso, mas aquele que imprime fundamento religioso à ação política.

Nas mais variadas frentes, domésticas ou diplomáticas, o presidente turco sinaliza para a recomposição geopolítica do império. É o fio condutor tanto das reformas sociais internas quanto da intervenção na guerra civil da vizinha Síria ou no conflito dos palestinos com Israel. É, igualmente, o sentido mais temporal da reconversão da imponente Hagia Sophia.

Falhas geológicas

É sobre esse mesmo traçado de placas tectônicas que se movimentam forças de igual profundidade histórica no terreno minado das fronteiras maltraçadas entre Israel e a Palestina. Também ali, o que dá sinais de ruir é a ordem mundial costurada um século atrás pelas potências coloniais vencedoras da Primeira Guerra Mundial.

Em especial, o arranjo rabiscado para a partilha das províncias otomanas dá sinais de esgotamento extremo. O enredo se desenrola na Síria dilacerada, no Iraque em permanente tensão, no Líbano fragmentado desde o âmago.

Mas as fissuras ancestrais estão à vista, sobretudo, na movimentação do governo de Israel para estender sua soberania a um terço do território palestino da Cisjordânia.

Cenário bíblico

O primeiro-ministro Benjamin Netanyahu não é propriamente um político religioso, mas sabe como poucos transitar pelo inconsciente coletivo da maioria dos judeus israelenses. Nesse plano, seu projeto de anexação invoca o cenário bíblico do vale do Rio Jordão, palco de momentos cruciais da história hebraica.

O discurso de sua coalizão sionista-religiosa-nacionalista varreu do vocabulário o termo Cisjordânia. Derivado da geopolítica dissimulada que nasceu do pós-Primeira Guerra, ele designava a porção da Palestina na margem ocidental do Jordão. Do outro lado do rio, o reino da Transjordânia, estabelecido como retribuição britânica ao clã hachemita, uma das tribos árabes aliadas a Londres na guerra contra os otomanos.

Na geografia de Netanyahu e sua coalizão, só existe o nome bíblico: Judeia e Samaria.

Mãe Rússia

Passou quase despercebido, em meio aos solavancos da pandemia, outro movimento na direção de resgatar um contemporâneo ; e rival ; da Turquia otomana. Em votação encerrada nos primeiros dias do mês, mais de dois terços dos eleitores referendaram uma ampla reforma política na Rússia.

As atenções dos observadores se concentraram no efeito mais imediato: o presidente Vladimir Putin garantiu para si a possibilidade de novas reeleições. Se vitorioso, pode deixar o Kremlin apenas em 2036, octogenário. O texto, porém, cimentou a comunhão entre o Estado e a Igreja Ortodoxa russa, com o presidente na posição líder político e religioso ; como os czares, desde Ivan, o Terrível.

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