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O passado que assombra: muçulmanos da Bósnia relembram data de genocídio

População relembra o 25º aniversário do genocídio cometido pelas forças sérvias, em 11 de julho de 1995. Sobrevivente relata ao Correio que não consegue esquecer o ''dia em que foram traídos e assassinados''

Rodrigo Craveiro
postado em 12/07/2020 07:00
Mulher bósnia que escapou da morte durante o genocídio visita túmulos de familiares, em PotocariAlmasa Salihovic, 33 anos, tinha 8 quando os soldados sérvios da Bósnia invadiram Srebrenica, um território declarado ;zona segura; pela Organização das Nações Unidas, em 11 de julho de 1995. Sob as ordens do comandante militar Ratko Mladic, exterminaram 8 mil adolescentes e adultos bósnios, todos eles homens muçulmanos. ;Eu era apenas uma criança, mas me recordo de tudo tão claramente. Imaginava que fosse algo que eu esqueceria, mas isso nunca ocorreu;, desabafou Almasa ao Correio. ;O 11 de julho será sempre um dos dias mais tristes da minha vida e de minha família. O dia em que perdi um irmão de 18 anos, o dia em que fomos traídos e abandonados para sermos assassinados;, acrescentou a sobrevivente do massacre de Srebrenica, uma professora de inglês que ainda vive na cidade.

A agonia da família de Almasa teve início em 1993, quando foi forçada a fugir do vilarejo Skejici, perto da fronteira com a Sérvia, e deixar tudo para trás, em meio aos bombardeios. ;Decidimos partir quando atingiram a nossa escola. Eu, meus quatro irmãos e mamãe. Chegamos a Srebrenica e ficamos em quarto oferecido por parentes. Achávamos que estaríamos protegidos, até aquele 11 de julho de 1995;, relatou. Fatima, a irmã mais velha, e o irmão Abdulah conseguiram refúgio em uma fábrica de baterias transformada em instalações da ONU. ;Eu, mamãe e dois irmãos não conseguimos entrar no local, que estava lotado. Passamos dois dias e duas noites do lado de fora, encostados na parede da fábrica. Escutamos gritos horríveis, pois os soldados sérvios vinham à noite e levavam homens adultos e adolescentes. Mulheres imploravam para que não fossem levados;, disse.

No terceiro dia, Almasa embarcou em um ônibus, sem ter notícias de Fatima e de Abdulah. ;No caminho até o território livre, civis sérvios parados à margem da estrada cuspiam nos ônibus e mostravam a língua e os dedos;, lembra. Um soldado sérvio entrou no veículo, sentou-se ao lado dela e começou a gritar, pedindo ouro, prata e dinheiro. ;Eu senti tanto medo que me levantei e ofereci-lhe minha boneca. Implorei que a levasse. O motorista pediu que ele saísse do ônibus. À noite, Fatima chegou sozinha. Ela nos contou que os soldados sérvios capturaram Abdulah. Nunca mais o vimos.; Em 2008, Almasa recebeu um telefonema do Instituto para Pessoas Desaparecidas. Encontraram 30% do corpo de Abdulah em uma cova coletiva secundária. Ontem, assim como faz religiosamente em 11 de julho, Almasa visitou o túmulo do irmão, que foi sepultado naquele mesmo ano.

Também no 25; aniversário do massacre e em uma cerimônia discreta, por conta da pandemia do novo coronavírus, familiares sepultaram nove vítimas ; cujos restos mortais foram identificados apenas em julho passado ; no cemitério do Monumento do Genocídio, na cidade de Potocari, vizinha a Srebrenica. Ao todo, 6.900 dos 8 mil mortos foram encontrados e sepultados em valas comuns. Os líderes políticos sérvios-bósnios insistem no negacionismo e depreciam a tragédia ocorrida em 11 de julho de 1995. Milorad Dodik, membro sérvio da presidência colegiada da Bósnia, recusa-se a aceitar o termo ;genocídio; e prefere a palavra ;mito;. O prefeito sérvio de Srebrenica, Mladen Grijicic, afirmou que ;todos os dias há novas provas que negam a apresentação atual de tudo o que aconteceu;.

Eu acho...

;Ainda é duro explicar o que era a vida durante aqueles dois anos de guerra, em Srebrenica. As pessoas praticamente viviam nas ruas, pois milhares tinham fugido de seus vilarejos rumo à cidade, programada área segura pela ONU. Todos imaginávamos que os capacetes azuis holandeses nos protegeriam. Mas não o fizeram. Vivemos como mendigos por dois anos: quase sem comida, sem água e eletricidade, as pessoas morriam em condições horríveis. Quando 11 de julho chegou, eles deixaram que nossos pais, irmãos e tios fossem mortos. Simplesmente nada fizeram. De minhas lembranças, recordo-me de ter visto uma campina cheia de homens e de meninos, todos sentados com as mãos atrás da cabeça.; Almasa Salihovic, 33 anos, professora de inglês, sobrevivente do massacre de Srebrenica.

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