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Eleições na Polônia: população decide entre ultraconservador e liberal

Cerca de 30 milhões de eleitores decidem, hoje, se o país continuará governado pelo ultraconservador Andrzej Duda ou se passará às mãos do prefeito liberal Rafal Trzaskowski. Especialistas temem radicalização e analisam como a extrema-direita avança na Europa

Rodrigo Craveiro
postado em 12/07/2020 07:00
Andrzej Duda e Rafal TrzaskowskiDe um lado, o presidente Andrzej Duda, apoiado pelo Partido Lei e Justiça (PiS, de extrema-direita) e com uma agenda populista contrária à ;ideologia LGBTQIA%2b;. De outro lado, o prefeito de Varsóvia, Rafal Trzaskowski, que segue a linha liberal pró-europeia e promete resguardar os direitos dos homossexuais, além de preservar os benefícios sociais criados pelo atual governo. Os dois candidatos disputam, hoje, o segundo turno das eleições presidenciais da Polônia tecnicamente empatados.

No primeiro turno, em 28 de junho, Duda obteve 43,5% dos votos contra 30,5% para Rafal. Divididos entre o medo e a esperança, os cerca de 30,2 milhões de eleitores poloneses definirão não apenas os rumos do país, mas a tendência ; ou não ; de avanço gradual da extrema-direita pela Europa, especialmente no leste do continente.

Pawel Machcewicz, historiador e professor do Instituto de Estudos Políticos da Academia Polonesa de Ciências, em Varsóvia, explica ao Correio que Duda focou-se em uma retórica agressiva contra alvos distintos. ;Ele promoveu uma campanha de ódio contra os LGBTQIA ; contra os alemães; contra os judeus ; a que acusou de desejarem recuperar suas propriedades na Polônia ;; e contra as elites liberais cosmopolitas, por supostamente terem traído a nação e servido a interesses estrangeiros. ;Os pontos ;positivos; da agenda de Duda incluem a defesa da posição dominante da Igreja Católica e da religião, além de transferências sociais introduzidas pelo PiS no valor mensal de 500 zloty (moeda local) por criança (ou R$ 674);, comentou. O PiS tem insistido à população que Rafal cancelará esses repasses, caso eleito, apesar de ele negar isso.
Para Machcewicz, a polarização crescente na sociedade polonesa atribuirá a um pequeno número de eleitores a decisão sobre o ganhador. ;A campanha é muito emocional, e houve exemplos de violência física contra simpatizantes de Rafal durante os comícios;, disse. Por sua vez, Przemyslaw Tacik, professor do Instituto de Estudos Europeus da Universidade Jaguelônica (em Cracóvia), disse que as mais recentes pesquisas indicam vitória mínima de Rafal. ;A guinada de Duda para a extrema-direita é uma clara tentativa de mobilizar a própria base eleitoral e ganhar alguns dos eleitoires de Krzysztof Bosak, candidato ultraconservador do primeiro turno. Impossibilitado de contar com novos eleitores moderados, pois sua base eleitoral está solidificada, Duda tem recorrido à polarização extrema.

SegundoTacik, Duda elegeu o tema dos direitos dos LGBTQIA e introduziu a homofobia como forma de ;proteger crianças contra a adoção por casais homossexuais;. Membros de seu gabinete e do PiS recorreram à linguagem que nega a dignidade dos homossexuais. ;Para ganhar eleitores de Bosak, o presidente expôs sua visão contrária à vacinação da população. Todas essas manobras, apesar de radicalizadas, estão bem-enraizadas nos esquemas populistas do PiS, que adotou a xenofobia e o antielitismo.;

Tacik acredita que, caso reeleito, o Partido Lei e Justiça retomará projetos inacabados, como a completa reconstituição do Judiciário e a ;repolonização; da mídia ; um atalho para obter controle político sobre emissoras de TV e de rádio independentes, assim como jornais e revistas. ;Se Duda vencer, o PiS terá três anos de controle quase desenfreado sobre as instituições do Estado e espera-se o desmantelamento do sistema de freios e contrapesos. No entanto, a dinâmica da recessão pós-covid-19 pode atrapalhar esses planos e forçar uma reconfiguração política antes das eleições parlamentares de 2023;, observou o professor da Universidade Jaguelônica.

Democracia


A eventual vitória de Duda manteria a extrema-direita no controle do país. De acordo com Tacik, o avanço dos ultraconservadores pela Europa tem uma dimensão geográfica: apesar de a direita populista manter presença em quase todas as nações europeias, ela chegou ao poder por um período mais longo na Europa Central Oriental ; especialmente na Hungria e na Polônia, mas, também, de formas mais ocultas, na República Tcheca e na Croácia. ;Em outros países, vemos a decadência da democracia liberal, o desrespeito ao Estado de direito, e a ascensão da xenofobia e do nacionalismo, como na Romênia e na Bulgária;, lembrou.

;No oeste e no norte da União Euroepeia, ainda que politicamente forte, a extrema-direita não ascendeu ao poder ainda, embora esteja em alta na França (Frente Nacional) e na Alemanha (AfD). O sul da Europa pode ser um terreno fértil: mesmo a longa sombra do franquismo não protegeu a Espanha de um partido da extrema-direita (Vox) ser eleito ao Parlamento. Na Itália, o populismo se sai muito bem: uma coalizão populista entre a Liga e o Cinco Estrelas durou um breve período, mas pode aumentar os sucessos futuros da extrema-direita.;

PONTOS DE VISTA

Por Pawel Machcewicz

Nacionalismo e perseguição

;O Partido Lei e Justiça, do presidente Andrzej Duda, é parte de uma onda nacionalista, populista e antieuropeia em muitos países da Europa. Eu citaria o partido Alternativa para a Alemanha (AfD), a Frente Nacional (França), o Fidesz (Hungria) e A Liga (Itália). No caso da Polônia, este movimento enfatiza sua orientação conservadora e católica, além de amplificar o uso da retórica antiLGBTQIA . Entre 2015 e 2019, o Lei e Justiça desmantelou muitos dos elementos do Estado de direito democrático e utilizou promotores públicos e serviços de segurança contra oponentes políticos. Se Duda vencer hoje, esta política será mantida e, provavelmente, radicalizada. Os próximos alvos seriam os meios de comunicação privados e independentes, bem como os governos municipais de cidades e de regiões não controladas pelo Partido Lei e Justiça.; Historiador e professor do Instituto de Estudos Políticos da Academia Polonesa de Ciências, em Varsóvia.

Por Przemyslaw Tacik

Assistencialismo e política do medo

;As principais promessas de campanha de Andrzej Duda estão focadas na manutenção dos benefícios sociais introduzidos por seu Partido Lei e Justiça, especialmente a assistência mensal a cada criança polonesa. A campanha teve por objetivo criar o medo de que os repasses serão cortados no caso de vitória de Rafal Trzaskowski. Além disso, Duda prometeu aumentar o subsídio do desemprego e introduzir benefícios também para os idosos, bem como um auxílio de solidariedade especial aos cidadãos que perderam seus empregos devido à pandemia do novo coronavírus. Duda utilizou-se da linguagem nacionalista para defender os interesses da Polônia contra outros países e contra a União Eropeia. Ao mesmo tempo, ele está inclinado a manter uma forte lealdade com os Estados Unidos.; Professor do Instituto de Estudos Europeus da Universidade Jaguelônica, em Cracóvia.

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