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Conflitos em Portland refletem história de progressismo e racismo

Os manifestantes se mobilizam quase todas as noites desde que o afro-americano George Floyd morreu sufocado sob o joelho de um policial branco em maio passado, em Minneapolis

Agência France-Presse
postado em 26/07/2020 15:28
Manifestação em PortlandLos Angeles, Estados Unidos - Para Portland, conflitos sociais e tumultos nas rua não são novidade. Essa cidade do estado do Oregon tem uma longa história de ativismo operário e de desafio à autoridade, mas também um sombrio passado segregacionista. Assim, apesar de sua pequena população negra, Portland não foi uma inesperada cena dos protestos contra o racismo que assolam os Estados Unidos e que levaram o presidente Donald Trump a enviar agentes federais para diferentes cidades.

Os manifestantes se mobilizam quase todas as noites desde que o afro-americano George Floyd morreu sufocado sob o joelho de um policial branco em maio passado, em Minneapolis. Com cerca de 650.000 habitantes, Portland começou a construir sua reputação de militância de extrema esquerda durante os agitados anos da década de 1960, como aconteceu com Seattle, ao norte, e San Francisco, mais ao sul.

E, desde a eleição presidencial de 2016, Portland simboliza a oposição mais virulenta contra Trump e seu Partido Republicano. "Os políticos antiautoritários de esquerda (...) estão presentes na verdadeira cultura de protesto de Portland nos últimos 30 anos, ou mais", afirmou o professor de Ciência Política Joe Lowndes, da Universidade de Oregon.

"Pequena Beirute"

A cidade ganhou o apelido de "Little Beirut" ("Pequena Beirute"), em referência à longa guerra libanesa depois que o então presidente George H.W. Bush enfrentou barricadas, pneus em chamas e cânticos hostis. "Mais recentemente, houve um tipo de trabalho antifascista nas ruas de Portland", lutando contra grupos supremacistas brancos e de extrema direita, disse Lowndes.

Protestos e "ataques violentos" dos grupos de extrema direita contra os moradores de Portland surgiram em 2016, acrescentou o professor, levando a "uma ativa rede de ativistas antifascistas que foi crescendo nos últimos anos". Em novembro de 2016, uma manifestação contra a eleição de Trump terminou em três dias de tumultos e confrontos com a polícia.

Inicialmente, a pandemia da covid-19 conteve os ânimos e restaurou a calma nas ruas. Depois, no entanto, cenas de supremacistas brancos e de neonazistas brigando com anarquistas encapuzados "Antifa" (antifascistas) se tornaram comuns. "É uma espécie de campo de batalha para extremistas", completou Lowndes.

Retroalimentação

"Dado que Portland ganhou a reputação de liberal, radical (e) progressista, as pessoas passaram a compartilhar essas posições e se gerou uma espécie de retroalimentação, fazendo a cidade se radicalizar ainda mais", disse Steven Beda, professor de História da Universidade de Oregon. Apesar de sua fama de santuário de esquerda, a cidade e o estado foram o produto de instituições racistas, lembrou Beda.

O Ku Klux Klan (KKK) "teve uma forte presença no Oregon na década de 1920. Atualmente, possui a maior taxa de adesão per capita ... e, nos anos 1920, havia uma relação muito próxima entre políticos e o Klan", acrescentou. Em 1926, leis locais proibiam a entrada de negros no estado sob pena de serem açoitados - uma punição que era repetida a cada seis meses, se eles continuassem lá.

Uma história de racismo

Portanto, ressalta o professor, o radicalismo deve ser acompanhado "de uma conversa sobre a história de exclusão e de racismo de Portland", onde apenas 6% da população é negra. As recentes tensões exacerbam as já longamente abaladas relações entre a maioria dos moradores e as autoridades, disse Lownes, o que contribui para a rejeição da chegada de agentes federais.

[SAIBAMAIS]"Os dois, ou três, anos anteriores de protestos políticos em Portland criaram uma fratura", considerou Michael German, um ex-agente do FBI (a Polícia Federal americana) que trabalha para um "think tank" de Nova York. "Quanto mais agride a polícia, mais agressões recebe", disse ele em entrevista ao jornal "The Washington Post".

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