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Com 35 países, projeto internacional Iter de fusão nuclear inicia nova fase

O objetivo do projeto é desenvolver a fusão de hidrogênio para produzir energia limpa

Agência France-Presse
postado em 28/07/2020 13:44
Um técnico passa pelo ciclador inferior do criostato, que fornece o ambiente de alto vácuo e ultra-frio para o tanque de vácuo e os ímãs supercondutores durante o lançamento do estágio de montagem da máquina de fusão nuclear O projeto internacional Iter, no qual 35 países tentam desenvolver a fusão de hidrogênio para produzir energia limpa, deu um novo passo nesta terça-feira (28/7), com o início da montagem de seu reator no sul da França.

"Com a fusão, a energia nuclear pode ser promissora para o futuro", oferecendo-nos "energia limpa, descarbonizada, segura e praticamente sem desperdício", disse o presidente da França, Emmanuel Macron, em um vídeo divulgado durante a cerimônia em Saint-Paul-l;s-Durance, onde o programa ocorre.

Também em uma mensagem de vídeo, o presidente sul-coreano, Moon Jae-In, elogiou "o maior projeto científico da história da humanidade" e este "sonho compartilhado de criar energia limpa e segura até 2050".

Este projeto foi iniciado por um tratado de 2006 e envolve 35 países - toda União Europeia (mais o Reino Unido), Suíça, Rússia, China, Índia, Japão, Coreia do Sul e Estados Unidos.

Uma alternativa ideal aos combustíveis fósseis, como petróleo, gás, ou carvão, que emitem CO2, a fusão de hidrogênio também pode substituir a energia nuclear.

A fissão atômica (que consiste em dividir um átomo de urânio, produzindo criptônio, bário e um excedente de energia) gera resíduos radioativos que persistem dezenas de milhares de anos.

Por outro lado, a fusão (que se baseia na união de dois átomos de hidrogênio, produzindo um de hélio e um excedente de energia) "não gera resíduos duradouros", explicou o CEO da Iter, Bernard Bigot.

Outra vantagem é que os combustíveis necessários para essa fusão, extraídos da água e do lítio, estão disponíveis e, segundo Bigot, "um grama de combustível libera tanta energia quanto oito toneladas de petróleo".

O problema da fusão é que ela requer temperaturas e pressões, às quais nenhum material consegue resistir. Com isso, o processo deve ser confinado dentro de um campo magnético - algo que nunca foi feito antes.

Nos últimos meses, vários componentes deste reator experimental, chamado "Tokamak" - alguns deles da altura de um prédio de quatro andares e pesando várias centenas de toneladas - foram trazidos da Índia, China, Japão, Coreia do Sul e da Itália.

Os elementos estão chegando gradualmente, mas as milhões de peças desse quebra-cabeça tridimensional ainda precisam ser montadas. Este trabalho deve durar até 2024 e empregar 2.300 pessoas.

150 milhões de graus

O reator gigantesco deve permitir reproduzir a fusão de hidrogênio que ocorre no coração das estrelas.

Especificamente, essa fusão será obtida elevando a uma temperatura de cerca de 150 milhões de graus uma mistura de dois isótopos de hidrogênio transformados em plasma, o quarto estágio da matéria.

Iter poderia começar a produzir plasma no final de 2025, ou no início de 2026, e o reator poderia atingir a potência máxima em 2035.

Como reator experimental, Iter não vai gerar eletricidade. Na melhor das hipóteses, será necessário esperar até 2060 para ter a primeira conexão à rede elétrica de um reator de fusão derivado do Iter.

Para gerar eletricidade, esses futuros reatores comerciais simplesmente usarão o calor gerado nas paredes de seu "tokamak" pelo bombardeio de nêutrons de fusão. Esse calor será evacuado através de um circuito de água pressurizada para fornecer, na forma de vapor, uma turbina e um alternador.

Se conectado à rede, Iter produziria apenas 200 MW de eletricidade, o suficiente para abastecer cerca de 200.000 casas. Futuros reatores de fusão poderiam abastecer dois milhões de residências.

Isso por um custo de construção e um custo operacional "equivalente ao de um reator nuclear convencional", segundo Bigot.

No entanto, esses "sóis artificiais" são criticados por ambientalistas, que os veem como "um abismo financeiro" e "uma miragem científica". O projeto já está cinco anos atrasado, com um orçamento inicial que triplica para quase 20 bilhões de euros.

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