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Sem medo da covid, jovens impulsionam surtos e colocam mais velhos em risco

Organização Mundial da Saúde (OMS) atribui surtos da covid-19 em nações europeias ao aumento de casos da doença entre população jovem. Especialistas culpam percepção de baixa vulnerabilidade ao novo coronavírus e alertam para risco de transmissão aos pais e avós

Rodrigo Craveiro
postado em 30/07/2020 06:00
Movimento diante de pub em bairro movimentado, no centro de Londres: relaxamento da quarentena ampliou o risco de contágio do Sars Cov-2 em vários países do continenteOs novos surtos da covid-19 em países europeus estão associados a um aumento no número de infecções entre os mais jovens. O alerta partiu de Hans Kluge, diretor da Organização Mundial da Saúde (OMS) para a Europa. ;Temos recebido relatos de várias autoridades sanitárias de uma proporção mais alta de infecções entre jovens;, afirmou à Radio 4, da emissora britânica BBC. ;Um número crescente de países está passando por surtos localizados e pelo ressurgimento de casos. É uma consequência da mudança do comportamento humano;, avaliou. A OMS detectou uma maior incidência em pessoas da faixa etária entre 20 e 39 anos. Os governos da França e da Alemanha reportaram um maior número de jovens testando positivo para o Sars CoV-2, o novo coronavírus. O fenômeno coincide com o relaxamento das restrições em algumas nações e com o início da temporada de verão, que tem lotado praias francesas e britânicas. Para Kluge, o aumento de casos de covid-19 entre os mais jovens é ;barulhento o suficiente para repensar na melhor maneira de envolver os adolescentes;.

Professor de ciência política e cofundador do Observatório Covid-19 para as Américas da Universidade de Miami, Michael Touchton admitiu ao Correio que pessoas mais jovens têm se envolvido em comportamentos de alto risco. ;Isso pode, facilmente, levar a covid-19 para seus pais e avós. Algo especialmente assustador em países onde jovens tendem a viver em famílias de várias gerações, inclusive durante a época da universidade. Tal condição se aplica à boa parte da Europa, Ásia e Américas do Sul e Central;, advertiu. De acordo com ele, os jovens vão a bares, restaurantes, festas e shows em taxas muito mais altas do que adultos. ;Como resultado, estão contraindo a covid-19 também com mais frequência, inclusive nos Estados Unidos. Isso não é surpreendente. Pessoas mais jovens são sistematicamente menos vulneráveis aos efeitos do Sars-CoV-2 e, portanto, menos cuidadosas em relação ao contato com pessoas infectadas, dispensando máscaras ou se expondo à doença;, disse.

Por sua vez, Michael Head ; pesquisador em saúde global pela Faculdade de Medicina da Universidade de Southampton (Reino Unido) ; explicou que há um aumento de evidências da transmissão dentro das comunidades, predominantemente entre jovens e crianças. ;É algo particularmente preocupante em países com grande número de casos, e isso inclui Brasil, Índia e Estados Unidos;, comentou à reportagem. Head alegou ser fundamental interromper a cadeia de transmissão entre os mais jovens, ;menos gravemente afetados pela covid-19 do que as gerações mais velhas;.

Para o especialista britânico, uma ;tempestade perfeita; de fatores facilitou a pandemia. ;O vírus, em si, é fácil de ser transmitido antes que a pessoa desenvolva os sintomas. Não existem vacina nem remédios realmente eficazes. Os testes de diagnóstico são essenciais, porém, mostram-se imperteitos ; eles não detectam todos os casos, principalmente nos primeiros dias de infecção;, afirmou Head, antes de cobrar uma ;liderança estável; dos políticos para um combate eficiente ao Sars-CoV-2. Ele entende que o declínio, de longo prazo, para zero caso da covid-19 sempre verá saliências nos gráficos, dentro da tendência de queda. ;Cabe aos países garantir que sejam apenas ;picos;, não uma ;segunda onda;;, aconselhou.

Touchton concorda que, apesar de muitas nações terem implementado lockdowns estritos, não investiram em rastreamento de contatos, à medida que aliviaram o isolamento social. ;Nem todos os países exigem máscaras em locais públicos. Lockdowns funcionam a curto prazo, mas são soluções insustentáveis, a longo prazo, ante à necessidade de gerar renda. À medida que os países relaxam as regras, eles devem criar um sistema robusto para identificar os infectados, rastrear contatos para isolar os que foram expostos e exigir as máscaras.;

Mortalidade


Dados do Instituto de Estatísticas da França (INSEE) apontam aumento de 28% a 71% na mortalidade na Espanha, Itália, Bélgica e França entre março e abril ; fenômeno atribuído à pandemia. Entre terça-feira e ontem, os espanhóis contabilizaram 1.153 casos de covid-19, o maior número desde 1; de maio. Até o fechamento desta edição, a Espanha acumulava 282.641 casos e 30.223 mortes. A França também registrou o maior número de infecções em 24 horas em mais de um mês: 1.392 casos entre terça-feira e ontem ; no total, são 221.077 casos e 30.226 mortes.

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