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Contato com vírus da gripe comum pode ser protetor


Uma das características da covid-19 que ainda não foram compreendidas por especialistas da área médica é por que muitas pessoas contraem o vírus e não demonstram sintomas. Essa reação pode ocorrer por causa de anticorpos produzidos pelo corpo humano devido ao contato com micro-organismos semelhantes, como o do resfriado comum, segundo cientistas alemães. Os pesquisadores chegaram a essa conclusão em um estudo científico publicado na última edição da revista Nature.

No trabalho, os cientistas deram foco à ação das células T helper, um tipo de glóbulo branco essencial para a regulação de resposta imune do organismo. Os pesquisadores isolaram células imunes do sangue de 18 pacientes com covid-19 e células imunes do sangue de 68 indivíduos que nunca haviam sido expostos ao Sars-CoV-2. Os cientistas, então, estimularam essas células imunológicas usando pequenos fragmentos sintéticos da proteína spike, a que ajuda o Sars-CoV-2 a entrar nas células humanas.

Os pesquisadores testaram se as células T helper seriam ativadas pelo contato com os fragmentos da proteína. O fenômeno ocorreu em 15 das 18 pessoas com covid-19 (85%). “Era exatamente o que esperávamos. O sistema imunológico desses pacientes estava no processo de combater esse novo vírus e, portanto, mostrou a mesma reação in vitro”, explica, em comunicado, Claudia Giesecke-Thiel, pesquisadora do Instituto Max Planck de Genética Molecular.

A equipe, no entanto, ficou surpresa ao encontrar células T helper de memória, capazes de reconhecer fragmentos de Sars-CoV-2 no sangue de indivíduos saudáveis. Elas foram encontrados em um total de 24 dos 68 indivíduos saudáveis testados (35%). A reação à exposição aos fragmentos da proteína spike, porém, foi distinta.

Mais estudos

Por causa dessa diferenciação, os pesquisadores explicam que ainda não é possível dizer se as células T helper podem influenciar o tipo de infecção de covid-19 que acometerá um paciente. “De um modo geral, é possível que as células T auxiliares tenham um efeito protetor — por exemplo, ajudando o sistema imunológico a acelerar sua produção de anticorpos contra o novo vírus”, explica Leif Erik, pesquisador da Universidade de Berlim e também autor do estudo.

“Nesse caso, um ataque recente de resfriado comum provavelmente resultaria em sintomas menos graves da covid-19. No entanto, também é possível que essa imunidade reativa cruzada possa levar a uma resposta imune mal direcionada e a efeitos potencialmente negativos sobre a covid-19, o que ocorre também na dengue, onde a segunda infecção é mais grave. Por isso, precisamos analisar mais esse tema”, complementa o pesquisador.

Gesmar Rodrigues Silva acredita que os dados vistos na pesquisa da Alemanha ainda são muito iniciais, com um grupo de analisados pequeno. “É importante saber que esses dois tipos de pacientes mostraram reação desses anticorpos. É um dado importante, que pode ser usado, no futuro, em outras pesquisas. Mas ainda não podemos fazer conclusões, principalmente em relação a diferenças na gravidade da doença. É necessário analisar um grupo mais amplo para entender melhor esses mecanismos e seus efeitos”, observa o coordenador do Departamento Científico de Imunização da Associação Brasileira de Alergia e Imunologia. (VS)