Jornal Correio Braziliense

Opinião

Sobre a depressão

Alinne Araújo tinha 24 anos, havia acabado de concluir o curso de teatro e vivia um sonho. Ela iria se casar com o rapaz com quem dividira o teto por nove meses. O tormento da depressão parecia ter ficado para trás e o futuro parecia repleto de boas surpresas. Na véspera do casamento, o noivo anunciou sua desistência por meio do WhatsApp. Não forneceu explicações e disse não estar preparado para o compromisso. Alinne decidiu ir adiante com uma cerimônia na qual ela se casaria consigo mesmo. A ideia era transformar o evento em ritual de passagem. A jovem divulgou fotos e vídeos na internet. Não bastou ter sido quase abandonada no altar, foi ridicularizada, submetida a um linchamento moral nas redes sociais, acusada de mentir para ganhar fama. O futuro de Alinne deixou de existir, a depressão venceu e ela saltou da janela para a morte.

O trágico destino de Alinne desanuviou olhares sobre a depressão. A doença atinge 322 milhões de pessoas no mundo ; 11,5 milhões de brasileiros ; e é a principal causa de morte entre jovens de 15 a 29 anos. Para muitos, o mal está associado à ;frescura;. Ainda bem que tal ;raciocínio; começa a cair por terra. A depressão é problema de saúde pública e merece ser tratada como tal. Entre 2006 e 2015, houve aumento de 24% no índice de suicídios entre jovens de 10 a 19 anos em seis capitais: Porto Alegre, Recife, Salvador, São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte. Anos atrás, em visita aos meus avós, um som seco e quase ensurdecedor foi o prenúncio de uma tragédia. Uma mulher tinha acabado de se jogar no vazio, no prédio ao lado. Era impossível não sentir a dor e o desespero que a induziram a ato tão extremo.

Quando não encoraja a pessoa a dar fim à vida, a depressão deixa sequelas morais, econômicas e profissionais, levando à incapacitação no trabalho e empurrando o paciente a um círculo vicioso. É um inimigo silencioso, que se instala, mina as forças da pessoa e lhe cega para as possibilidades de cura. Quem é acometido pela depressão precisa de ajuda especializada e de carinho. Muitas vezes, a doença se camufla atrás de sorrisos ou de oscilações de humor. Alinne pretendia concluir o curso de psicologia e ajudar tantos como ela a suportarem o fardo que carregou desde a infância. Não teve tempo. Cada pessoa que a ofendeu e dela debochou nas redes sociais deu um pequeno empurrão para a sua morte. Alinne tinha sonhos. Queria se casar e ser feliz. Não resistiu à decepção e à maldade alheia. Preferiu sair de cena, como tantas outras pessoas escolhem fazer. Que Alinne perdoe tanta omissão e tanto sadismo.