Publicidade

Correio Braziliense

Artigo: as bolsas do CNPq e a Obmep

"O desenvolvimento científico e tecnológico de um país requer também apoio para aqueles que aspiram ser pesquisadores ou engenheiros e o poder público não pode se eximir desta responsabilidade"


postado em 28/08/2019 09:10 / atualizado em 28/08/2019 11:25

"A desvalorização da ciência e do ensino público representa um grave risco para o futuro do país" (foto: Kleber Sales/CB/D.A Press)
Conforme anunciado na última semana, a partir de setembro, o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) promoverá a suspensão de bolsas de estudos pós-graduados e de pesquisa avançada, caso não haja aprovação de créditos suplementares. A gravidade e os impactos negativos para a pesquisa científica e tecnológica em nosso país, decorrentes dessa suspensão, foram amplamente divulgados e a comunidade científica brasileira, de todas as áreas de conhecimento, brada forte em oposição à medida. Todavia, o anúncio dos cortes inclui também as bolsas de iniciação científica concedidas para medalhistas da Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas (Obmep), estudantes de ensino médio de todo o país, em favor dos quais aqui também nos manifestamos.

É fundamental que seja evidenciada a importância bastante consolidada da Obmep para o ensino de matemática e das bolsas de iniciação científica para os medalhistas, no sentido de potencializar talentos e incentivar carreiras em uma área de conhecimento crítica e básica. Criada em 2004, a Obmep objetiva contribuir para a melhoria da qualidade da Educação Básica; identificar jovens talentos e incentivar seu ingresso nas áreas científicas e tecnológicas; incentivar o aperfeiçoamento dos professores das escolas públicas, contribuindo para a sua valorização profissional; integrar as escolas públicas com as universidades públicas, com os institutos de pesquisa e com as sociedades científicas; e promover a inclusão social por meio da difusão do conhecimento. São objetivos que por si só mereceriam ampliação dessa importante política pública, em vez de submetê-la a cortes orçamentários injustificáveis.

A Obmep premia os alunos com medalhas de ouro, prata, bronze e certificados de menção honrosa, além de Bolsas de Iniciação Científica Júnior. Os professores das escolas públicas responsáveis pela inscrição dos alunos vencedores também são premiados com cursos de atualização e aperfeiçoamento, no Instituto de Matemática Pura e Aplicada (Impa), criado em 1952, uma das instituições mais respeitadas da ciência brasileira e um dos centros mais reconhecidos de pesquisa matemática no mundo.

Em trabalho de avaliação da Obmep que conduzimos em 2010, ficou evidente que diferentes atores chave estão intrinsecamente associados ao sucesso da iniciativa e se beneficiam dela. Além da equipe diretamente envolvida em sua realização em todo o Brasil (diretoria acadêmica, coordenadores nacionais e regionais, pessoal de apoio técnico entre outros), milhares de gestores escolares e de professores e milhões de alunos e pais de alunos dão forma efetiva à olimpíada, tornando-a um empreendimento extremamente bem-sucedido no que se refere ao alcance geográfico. Em pouco mais de uma década, a Obmep alcançou quase 18 milhões de alunos e mais de 47 mil escolas, tornando-se a maior olimpíada estudantil do mundo, e esse ataque irresponsável por meio do corte de um de seus principais seguimentos, as bolsas de iniciação científica, fraqueja seus tentáculos e compromete o projeto de futuro que a olimpíada deveria ajudar a construir.

A Obmep procura, sobretudo, identificar o aluno talentoso, hábil em matemática, a fim de colocá-lo em evidência, oferecer a ele um suporte moral e financeiro para que ele persista e avance com sucesso em estudos no campo da ciência e da tecnologia. Ainda que os alunos medalhistas sejam talentosos, há um aumento significativo do interesse pela área de conhecimento na medida que as bolsas de iniciação científica os insere em contextos de estudos avançados, mesmo na condição de estudantes de ensino médio.

No que concerne ao suporte moral, ficou evidente a melhoria da autoestima dos alunos, pelo reconhecimento dos professores e da família. No que se refere ao suporte financeiro possibilitado pelas bolsas, diversos alunos apontaram que, além do insumo financeiro, a dinâmica acadêmico-científica decorrente de sua imersão em situações de iniciação científica é um fator crucial em sua decisão de prosseguir estudos nas áreas de engenharias, ciência da computação e matemática, carreiras preferidas pelos medalhistas, conforme evidenciou nosso estudo.

Finalmente, é importante destacar que o desenvolvimento científico e tecnológico de um país requer também apoio para aqueles que aspiram ser pesquisadores ou engenheiros e o poder público não pode se eximir desta responsabilidade. Basta constatar que, diante das informações apresentadas, as engenharias, uma das áreas consideradas prioritárias pelo novo governo, tende a ficar prejudicada com a suspensão das bolsas para a Obmep, o que consiste em um verdadeiro tiro no pé. Ou seja, mais uma vez, percebe-se que o que está em jogo, de fato, é uma desvalorização da ciência e do ensino público, o que representa um grave risco para o futuro do país, de repercussões negativas a curto, médio e longo prazos.

 

*Professora aposentada da UnB e vice-presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC)

**Professor titular da Faculdade de Educação da Universidade de Brasília (UnB)

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação

Publicidade