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Correio Braziliense

Artigo: Frases feitas e suas desfeitas

Ao longo da semana, passeei pelas frases, textos, pensamentos de Fernanda Young, que morreu tão jovem e deixou um legado de autenticidade difícil de se achar por aí


postado em 01/09/2019 07:00 / atualizado em 01/09/2019 11:30

(foto: Maurenilson Freire/CB/D.A Press)
(foto: Maurenilson Freire/CB/D.A Press)

A mãe de uma amiga destila pérolas no cotidiano. Tem na ponta da língua uma coleção de frases que saem com aquele impulso que leonino nenhum é capaz de segurar. Esses dias, minha amiga me mandou mais uma dela. Num singelo almoço de domingo, em que as discussões costumam ficar acaloradas e os debates a respeito da vida em família se intensificam a ponto de comprometer a digestão, ela soltou: “Gente, estou tentando ser melhor, mas não garanto nada não...”. Eu ri... Porque lá no fundo faz imenso sentido para mim.

Aos 70 anos, ela sabe que não pode dar garantias de mudança. Não pode prometer que não dirá o que pensa. Não pode se comprometer a não ser ela mesma. Quando os filtros não funcionam como deveriam e a língua se adianta, é preciso consertar. Ela bem que tenta: “Vai desculpando aí, se puder... saiu sem querer, mas é o que eu penso... fazer o quê?”. Ou seja: “Não é desculpe, eu errei...”, “Desculpe, eu me expressei mal...” É apenas: “Desculpe, mas é o que penso”. Simples assim. Ou seja, se ela conseguir ser melhor, cá com meus botões, acho que vai estragar tudo.

Lembrei dela porque, ao longo da semana, passeei pelas frases, textos, pensamentos de Fernanda Young, que morreu tão jovem e deixou um legado de autenticidade difícil de se achar por aí. Todo mundo postando coisas que ela disse, repetiu, escreveu e até talvez escondeu por trás de seu visual icônico, de sua verborragia forte, de sua escrita potente. Ainda que se fizesse ouvir, que tivesse leitores e fãs, ainda que fizesse rir com seus programas, tão finamente interpretados, Fernanda Young foi pouco homenageada pelo seu melhor: a arte de dizer o que pensa. Olhando e lendo hoje, acho que ela foi de uma sensibilidade tão doce e forte que se tornou um exemplo inspirador.

Algumas vezes, somos abatidos pela acusação de sincericídio. Acusados e condenados por dizer o que pensamos. Ao longo dos anos, fui aprendendo a me conter mais, a ficar mais calada, talvez convencida pela turba que sopra: “Não vale a pena entrar nisso; não vale a pena dialogar com aquela pessoa; não vale a pena...”. Talvez, em muitos casos, não seja mesmo proveitoso ou válido ou bonito. Mas, de vez em quando, amigo, solte o verbo, diga o que pensa sem dó, perdoe a si mesmo por ser honesto. Calar a alma pode trancar sentimentos. Deixe-os sair para passear, abra espaço, esvazie.

Fique com FernandaYoung: “Eu estou em paz. Me dei conta de que não sou eu quem sai perdendo nessa história. Ponto pra mim. Rumo ao zero absoluto. Zerar todo e qualquer sentimento. Me esvaziar para encher de novo depois, com sentimentos fresquinhos como a primavera”. A primavera está logo ali.

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