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Correio Braziliense

Artigo: O livro é nosso escudo e arma a inteligência

"Precisamos, o quanto antes, incentivar a criação de grêmios estudantis em todas as escolas. Eles garantirão o equilíbrio educacional necessário"


postado em 05/09/2019 09:00 / atualizado em 05/09/2019 09:36


Quando cheguei ao colégio, magrinho, baixinho, com apenas 10 anos, logo me enturmei com os meninos mais velhos com 11 e 12 anos. Apesar da camaradagem, ninguém escapava de ganhar um apelido. Ganhei um: tarracha. Criativo, ajudei na escolha de apelidos para outros colegas. Assim, foram de minha lavra outras alcunhas: moringa para o gordinho, canário para o loirinho, chapinha para o cdf quieto, punheteiro para o ruivo de olhos vermelhos, e por aí vai. Estou me reportando a 1952, quando, para alegria de meus pais, passei no concurso de ingresso do Colégio Pedro II: o da Rua Larga, conhecida hoje como Avenida Marechal Floriano.

Ao ver meu nome na lista de aprovados, minha mãe levou-me à Casa Mathias para comprar meu uniforme. Era uma farda, bem no estilo militar, com a cor “burro quando foge” quase verde oliva. Eu e as outras crianças nos sentíamos altivos e importantes com aquele uniforme: sapatos pretos com meias brancas, calça com vinco colorido, jaqueta com botões dourados. Na cabeça, o quepe.

Quando, de mãos dadas com minha mãe, rumo ao ponto de bonde, fui pela primeira vez ao colégio, tive a sorte de passar pela casa de Dona Violeta, que vivia na janela. Felizmente, ela nos avisou que não se usava mais o quepe. A Casa Mathias vendia o uniforme completo, sem avisar que o quepe não mais era usado. Dona Olinda guardou o quepe na bolsa, e livrei-me de grande chacota. O uniforme, tal como nos militares, valorizava a tradição e elevava a autoestima. A hierarquia e a disciplina se potencializavam. Era reforçada a igualdade entre crianças e adolescentes de diferentes origens: ricos e pobres.

No CPII enfrentávamos três autoridades que davam medo: o chefe de Disciplina, o bedel e o inspetor de Turma. Eles eram civis, mas agiam com rigor militar. Apesar disso, não dizíamos, como dizem hoje, que o colégio era militarizado. Muito ordeiros, fazíamos fila para tudo: os mais baixinhos na frente. Com o maior orgulho, cantávamos o Hino Nacional e vários outros hinos. A disputa era grande na escolha para fazer o hasteamento da bandeira.

O que resultou daquele rigor paramilitar? Eu sou um dos resultados. Refiro-me a mim, esquerdista, compositor, professor universitário, que lutou e luta para que mudem o Hino Nacional que tanto cantávamos e que tem aquela letra gongórica e ridícula de Osório Duque Estrada. Menciono outros resultados daquela disciplina rigorosa: Dias Gomes, Cassia Eller, Miro Teixeira, Luiz Fux, Fernanda Montenegro, Geir Campos, Gerald Thomas, Luiz Pinguelli Rosa, Marcelo Yuca. Antes de minha geração, rigorosa disciplina foi imposta, no CPII, às seguintes crianças uniformizadas, e de quepe: Mario Lago, Nilo Peçanha, Rodrigues Alves, Raul Pederneiras, Pedro Américo, Paulo de Frontin, Osvaldo Cruz, Noel Rosa, Manuel Bandeira, Lima Barreto, Joaquim Nabuco, Alceu de Amoroso Lima, Álvares de Azevedo etc., etc.

Mas  havia um antídoto que se contrapunha à rigorosa disciplina quase militarizada: os estudantes se organizavam e faziam política estudantil no Grêmio. No CPII, ele se chamava Grêmio Científico e Literário Pedro II. Pouco de ciência e pouco literatura se fazia. É bem verdade que, alguma vez, organizou-se um concurso de poesias ou uma exposição de artes plásticas. Mas isso era raro. Nas reuniões dos estudantes, no grêmio, predominava a discussão e a formação política. Jovens lideranças despontavam. Naquela “escola sem partido”, com professores tais como Aurélio Buarque de Holanda, Cecil Thiré, José Oiticica, J.G. de Araújo Jorge, estudantes tomavam partido no grêmio e fora dele, discutindo e tomando posições em favor da melhoria do colégio e da melhoria do Brasil.

A energia estudantil transbordava, com a inserção nas lutas da sociedade organizada. Os grêmios se congregavam, com ideologias diversas e antagônicas, nos Congressos da UNE. O aumento nos preços das passagens dos bondes sempre era motivo para o congraçamento estudantil que desembocava em greves históricas e exitosas.

Enfim, deixemos Ibaneis fazer seus experimentos estranhos e autoritários. Veremos os resultados dentro de alguns anos. Mas precisamos, o quanto antes, incentivar a criação de grêmios estudantis em todas as escolas. Eles garantirão o equilíbrio educacional necessário, para que sejam formados grandes brasileiros, não bitolados, esclarecidos, politizados, que terão o livro como escudo e a inteligência como arma. O título deste artigo é trecho do Hino dos Alunos do Colégio Pedro II, escrito por Hamilton Elias e musicado por Francisco Braga.

*Maestro, compositor, membro eleito vitalício da Academia Brasileira de Música, professor titular aposentado da Universidade de Brasília (UnB)



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