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Correio Braziliense

Artigo: As lições de Amyr


postado em 06/10/2019 11:33 / atualizado em 07/10/2019 11:09

Travessia de Amyr Klink em 1984 com o IAT(foto: AKPE/Divulgação)
Travessia de Amyr Klink em 1984 com o IAT (foto: AKPE/Divulgação)
Aceitei o convite de um amigo juiz e fui assistir a uma palestra do velejador e escritor Amyr Klink, sábado passado, no Instituto Brasiliense de Direito Público (IDP). Nunca ouvi na vida um contador de histórias mais fascinante do que aquele homem. Do jeito que subiu ao palco, pulando os degraus, à forma como segura o microfone e se movimenta ao falar, Klink inspira confiança e te leva por todas as viagens que fez sozinho no mar. E por muitas outras.

Logo imaginamos que poderia falar de todas as enormes aventuras que viveu. Mas é mais simples do que isso. Na verdade, ele nos ensina como pode ser até prosaica a maneira como devemos lidar com a complexidade da vida. A maioria dos insights que teve, por exemplo, ele conta, foi no banheiro.

Sim, segundo o paulista Amyr, o banheiro é o lugar ideal para nos livrarmos da sofisticação idiota que, às vezes, nos assola para fazermos escolhas simples de soluções até para o pior dos problemas. De tudo que ouvi ali naquele auditório com plateia jovem, inacreditavelmente atenta e voluntariamente sem usar o celular por mais de uma hora e meia, é que não adianta fugir do problema, seja ele enorme e sufocante, seja o mais tolo, aquele que criamos a cada segundo.

Ele disse e eu acreditei: "Abrace seus problemas". Contou que a parte mais perigosa da primeira grande travessia que fez sozinho foi quando tentou ser esperto e cortou caminho. "Isso nunca dá certo", afirmou Amyr. E prosseguiu: "Quando você tenta buscar atalhos, na verdade, está fugindo do problema, e isso é a pior coisa que pode fazer."

Para Klink, é preciso levar todos os seus problemas a sério. Somente dessa maneira o empreendedor ou você, leitor, poderá enxergar oportunidades para melhorar e superar obstáculos. Com a experiência de quem já passou mais de 600 dias ininterruptos sozinho no mar, ele sabe que o medo ainda pode ser uma força motora, sobretudo no meio de uma crise.

"Todas as ideias geniais que eu tive surgiram nos anos de penúria, quando estava sob pressão e com medo de quebrar", disse. Hoje, ele ganha a vida administrando barcos e desenvolvendo projetos para terceiros.

Sabe que se lançar ao desconhecido, ao novo, ao mundo é a experiência mais motivadora que existe. Aconselha largar as fotos de catálogos de viagens ou do Instagram e sair por aí. "O maior naufrágio é não partir", afirmou. Ser protagonista das suas próprias viagens, ir com olhos abertos e pés firmes ajuda a entender o que de fato é seu neste mundo. Assim seremos capazes um dia de plantar as nossas próprias árvores e dar-lhes valor.

Amyr disse mais: é preciso conhecer o frio para desfrutar o calor e vice-versa; sentir a distância e o desabrigo para estar bem sob o próprio teto; conhecer lugares que não conhece para quebrar essa arrogância que nos faz ver o mundo como o imaginamos e não simplesmente como é ou pode ser.

Saí do IDP e fiz, em uma semana, coisas que não fazia há anos: voltei a fazer corrida de rua e postei minha foto quase morta, assisti a uma maratona de filmes em um mesmo dia, coisa que amo fazer, tomei café com dois vizinhos incríveis que cruzavam comigo no elevador há 15 anos, mas nunca conheci de fato, conheci o novo apartamento de duas adoráveis amigas e troquei o tema chato e árido que abordaria neste artigo pela experiência que tive ao assistir Amyr Klink falar. Desejo que você faça o mesmo. Abrace seus problemas e saia por aí neste domingo.

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