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Correio Braziliense

Artigo: Negociar é preciso

O presidente tropeça no próprio pé. Ele, se tiver humildade, vai aprender à força a necessidade de negociar para permanecer no poder


postado em 15/10/2019 04:15 / atualizado em 16/10/2019 11:14

(foto: Marcos Correa/PR)
(foto: Marcos Correa/PR)
Há uma história, não sei se verdadeira, que narra o momento em que Paulo Coelho, ainda um hippie perdido entre nuvens de fumaça em Salvador e arredores, foi visitar Irmã Dulce no seu cafofo na cidade baiana. Conversaram muito, trocaram ideias e, ao final, o agora escritor de sucesso confessou que não tinha dinheiro nem para o ônibus. Ela não teve dúvidas: escreveu num pedaço de papel o seguinte: “Vale uma passagem”. E assinou.

O inacreditável documento foi aceito pelo motorista, e a vida de Paulo Coelho mudou. Hoje ele vive muito bem na Suíça e seus livros fazem sucesso em diversos idiomas no mundo inteiro. Pagou várias vezes sua dívida. Ela continuou a fazer suas obras sociais — transformou o galinheiro no espaço para um orfanato — e sem se importar com nada. Filha de dentista, neta de deputado, fez a vida na Terra. E, nesta semana, iniciou sua vida na eternidade. Santa Dulce dos Pobres.

O presidente Jair Bolsonaro não participou da festa em Roma. Decisão incrível para um populista de carteirinha. Mas ele é evangélico, antes de ser presidente da República. Por essa razão, entregou a honra da representação do Brasil, junto ao papa Francisco, ao vice-presidente Hamilton Mourão, à frente de um séquito de senadores de partidos diversos e até antagônicos no Vaticano. As manifestações populares costumam ser respeitadas por políticos experientes. Antônio Carlos Magalhães, que mandou e desmandou na Bahia durante décadas, fazia reverências a Irmã Dulce. Ninguém brinca diante de uma força da natureza.

Jair Bolsonaro é uma força política. Não há dúvida. Ele foi eleito numa campanha de escassos recursos diante de candidatos que representavam partidos organizados em todo o país e com muito dinheiro em jogo. Bolsonaro e seus filhos se organizaram nas redes sociais, criaram seus robôs, multiplicaram opiniões e vontades por todo o país. Criaram bordões, falsas verdades, imagens distorcidas, destruíram reputações e impuseram sua narrativa. Desmancharam a versão dos petistas, arrasaram os partidos de centro e chegaram à Presidência da República. E o fizeram por intermédio de um partido, o PSL.

Essa legenda não valia nada antes de Bolsonaro. Tinha apenas um deputado, o pernambucano Luciano Bivar, corretor de seguros bem-sucedido, diretor do Sport Club Recife e político ocasional. Ele, com Gustavo Bebbiano, conseguiu atrair o candidato perdido entre os grandes partidos para a pequena legenda. Bolsonaro já havia passado por nove partidos. Ele é campeão do esporte de mudar de camisa partidária. Mas, no PSL, aconteceu o milagre. Na última eleição, o partido elegeu 54 deputados e quatro senadores. E, naturalmente, passou a receber um caminhão de dinheiro da verba dos partidos, utilizada para a manutenção das legendas. Depois virá a chuva de dinheiro da verba eleitoral. Dinheiro na mão é vendaval, já dizia Paulinho da Viola.

No calendário dos políticos, o país já está na véspera da eleição municipal de 2020. É necessário arrumar as alianças, escolher candidatos fortes, determinar palanques nos estados e apostar em grandes vencedores. Isso exige alianças, conversas, escolhas, determinações e, sobretudo, dinheiro, muito dinheiro. Ninguém é candidato de si mesmo. É fundamental haver o suporte definido e objetivo de um partido político. Isso significa apoio em comícios, reuniões, aplausos necessários e ataques a adversários. Ou seja, organização, planejamento e verba.

É disso que se trata o problema atual do presidente Bolsonaro. Ele chegou ao Palácio do Planalto sem conhecer a extensão de seu poder. Foi descobrindo aos poucos, na mesma medida em que passou a exonerar eventuais insatisfeitos após suas descobertas no papel de presidente inesperado. Militares deixaram o poder, alguns demitidos com humilhação, amigos se tornaram ex-amigos e Luciano Bivar, o correligionário de primeira hora, passou à categoria de líder queimado. Acontece que ele tem a máquina do partido na mão. E não dá sinais de querer negociar. Mudou o estatuto do partido e aumentou seu poder dentro da agremiação.

No governo Bolsonaro, só a área econômica tem projeto. Sinaliza onde pretende chegar. Na política, o governo não moveu uma única peça para montar seu bloco de sustentação parlamentar. O partido é um saco de gatos zangados. Uns brigando com os outros. E ele ameaça deixar a sigla para sair em busca de novo ninho. O tempo é curto. A eleição municipal já está em curso. De novo, o presidente tropeça no próprio pé. Ele, se tiver humildade, vai aprender à força a necessidade de negociar para permanecer no poder. Se não, ficará em situação crítica.

*Jornalista

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