Publicidade

Correio Braziliense

Artigo: O olho do dono engorda o gado?

Quando se fala de excelência em gestão, um dos mantras é %u201Co que não se mede não se gerencia%u201D


postado em 18/10/2019 09:48

Numa grande empresa trabalhava um gerente chamado Alex, profissional sério e tecnicamente preparado. Sua forma de trabalho incluía promover reuniões semanais com a equipe para fazer um balanço do trabalho realizado e indicar os próximos passos. Terminadas as reuniões, cada integrante da equipe saía com suas atribuições, tarefas e responsabilidades definidas com vistas a garantir a respectiva execução. Entretanto, havia uma condição imposta por Alex: antes de colocar cada ação em andamento, seria necessária sua prévia e pessoal aprovação.

Tanto nas organizações privadas quanto no setor público ainda é muito comum encontrarmos gestores com esse perfil. Quem se apoia nessa premissa centralizadora costuma alegar que precisa saber antecipadamente tudo o que a equipe faz como garantia de que as decisões tomadas sejam efetivamente cumpridas. Diante disso, cabe a pergunta: será essa a maneira mais eficaz de gestão?

Quando se fala de excelência em gestão, um dos mantras é “o que não se mede não se gerencia”. Mas, afinal, o que deve ser medido e com que régua? Ao fazer essas escolhas é que surge certa confusão. Imaginemos que uma pessoa é designada responsável pela manutenção da ordem em uma fila indiana. Olhando o cenário de perto, se percebe que seu desempenho é notável! Todo mundo segue andando, respeitando seu lugar.  Porém, quando se olha mais adiante, o destino dessa hipotética fila é um abismo. Ou seja, o processo de organização da fila está perfeito, mas o resultado é uma tragédia anunciada, exceto se o objetivo for provocar morte coletiva.

O sucesso na aplicação do mantra supracitado começa pela determinação dos resultados que se pretende obter, estabelecendo-se metas claras. Posto isso, qualquer avaliação de desempenho começa pela verificação dos resultados, deixando a avaliação dos processos para um segundo momento. Em outras palavras, se os resultados propostos não forem alcançados nos prazos estabelecidos, de nada adianta ter processos organizados e realizados de maneira adequada. Além disso, precisamos selecionar o instrumento de medida a ser utilizado. Para tanto, devem ser escolhidos os indicadores. Importante observar que, em muitas ocasiões, eles são mal definidos e comprometem a medição. Vamos a um exemplo:

A Constituição Federal estabelece para os três níveis da administração pública que, no primeiro ano de mandato, o Poder Executivo tem a obrigação de elaborar e encaminhar para o respectivo Poder Legislativo o PPA — Plano Plurianual, prevendo o que se pretende realizar nos próximos quatro anos. A estrutura desses planos apresenta um conjunto de programas e ações bem como metas e indicadores. Atuando como consultor junto a diversas prefeituras na elaboração dos respectivos PPAs, encontrei situações que podem ser classificadas como bizarras. Uma ação muito comum no PPA de diversos municípios prevê a melhoria e a conservação de infraestrutura de logradouros públicos. E qual indicador aparece como primeira sugestão para esta ação? Em geral, querem utilizar um percentual. E, de preferência, indicar 100% como meta de cumprimento para cada um dos quatro anos. Ora bolas, o que significa isso? Cem por cento de quê? Ao seguir esse modelo, abrem mão da responsabilidade de indicar uma previsão de quantos logradouros serão atendidos, tornando impossível a avaliação dos resultados e eventuais ajustes no inicialmente planejado. Resta apenas verificar, ao longo do mandato, qual percentual do orçamento foi executado. Ou seja, mais uma vez estão medindo processo.

E aqui voltamos ao Alex, nosso gerente centralizador. Ele tem muita dificuldade com outro mantra da excelência em gestão: a delegação. O sucesso de inúmeras organizações indica ser imprescindível garantir autonomia às equipes para executar o que foi planejado, incentivando seu espírito realizador. Penso que é preferível ter nas equipes pessoas que, eventualmente, precisem ser freadas em suas iniciativas, em vez das que, sistematicamente, necessitem ser empurradas. Mas atenção: não se deve confundir delegar com delargar! Cabe a gestores fazer o acompanhamento do desempenho das equipes, medindo os resultados. E, com base nessa verificação, fazer os sempre possíveis e necessários ajustes nos processos visando melhorar os resultados.

Por fim, fica uma reflexão em forma de pergunta: o país teria alcançado o desempenho espetacular no agronegócio caso as lideranças do segmento continuassem a achar que o gado só engorda com o olhar do dono?
 
*Consultor em estratégia    

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação

Publicidade