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Correio Braziliense

Artigo: Um jogo de empurra


postado em 16/11/2019 04:28 / atualizado em 16/11/2019 11:45

Um acinte a comparação do governador Wilson Witzel de que a segurança no Rio de Janeiro está no mesmo patamar da de Nova York, Paris e Madri. Declaração feita no mesmo dia em que era enterrada a sexta criança vítima de bala perdida na cidade em 2019. Ketellen, de 5 anos, foi atingida em Realengo, Zona Oeste, quando estava a caminho da escola. Mesmo ferida, ainda tentou consolar a mãe: ao vê-la desesperada e ao prantos, pediu que não chorasse. A menina chegou a ser operada, mas não resistiu. Um drama de doer na alma. Não na de todos, está claro.

A família de Ketellen se junta em luto à de Ágatha, 8; Jenifer e Kauã, 11; e Kauan e Kauê, 12. Todos vitimados este ano na pacífica cidade de Witzel. Só posso imaginar como os parentes dos inocentes mortos, crianças ou não, receberam as palavras do responsável por gerir o estado.
Um levantamento do portal G1 mostra que o Rio registrou, no ano passado, 28,76 mortes violentas para cada 100 mil habitantes, enquanto Nova York teve 3,3 homicídios, no mesmo período, a cada 100 mil habitantes, e Paris, 1,4.

Horas depois, Witzel explicou sua declaração. E a piorou. Afirmou que se referia às áreas turísticas do Rio. “Leblon, Copacabana, Ipanema, Botafogo, Flamengo. Se você pegar o mapa da rua, não tem homicídio. Onde está o homicídio no Rio de Janeiro? (…) Infelizmente, está nas comunidades onde estão o tráfico e a milícia. (...) Turista vem para cá e não vai ficar em cima do morro. Ele vai ver os equipamentos turísticos”, disparou. Pobre Rio de Janeiro!

O governador chegou a usar a morte de Ketellen para atacar a gestão Bolsonaro, com quem trava guerra política, de olho na Presidência da República em 2022. Em declaração à la Pôncio Pilatos, disse que impedir a entrada de armas e drogas no país é dever do governo federal. O ministro da Justiça e Segurança Pública, Sérgio Moro, respondeu que Witzel estava querendo transferir a responsabilidade dos crimes no estado. É isso, então, ninguém tem culpa pela perene violência. E nesse jogo de empurra, a população indefesa vai contabilizando seus mortos.
 
 

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