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Correio Braziliense

Artigo: Vida revivida

''Talvez, se soubéssemos como a vida é curta, seríamos mais autênticos e verdadeiros''


postado em 27/11/2019 12:37

A morte do apresentador Gugu Liberato trouxe reflexão sobre assuntos como a atuação da imprensa e a solidariedade(foto: Nilton Fukuda/Estadao)
A morte do apresentador Gugu Liberato trouxe reflexão sobre assuntos como a atuação da imprensa e a solidariedade (foto: Nilton Fukuda/Estadao)
Não deveria ser preciso a morte de uma figura pública para percebermos a finitude da vida, e nos darmos conta de que estamos aqui apenas de passagem. Quando isso ocorre, somos forçados a refletir sobre o que realmente vale a pena, sobre o quanto desperdiçamos de tempo com mágoa e rancor. Como deixamos de valorizar o sorriso, o simples e o amor.

Talvez, se soubéssemos como a vida é curta, seríamos mais autênticos e verdadeiros. E entenderíamos o valor errado que damos ao dinheiro. Porque, na nossa última viagem, todos nós, ricos e pobres, príncipes e camponeses, patrões e empregados, seríamos igualados. De nada importarão títulos e riquezas. Não restarão a cobiça, a arrogância e a avareza. Somente a certeza de que, no fim, tudo o que vale são bons sentimentos.

A morte do apresentador Gugu Liberato trouxe ensinamentos para jornalistas e para o ser humano, na acepção mais ampla. Para nós, da imprensa, a constatação de que o furo de reportagem não compensa quando se vilipendia a dor alheia e se despreza o luto do próximo. O anúncio de um falecimento de pessoa pública deveria partir não do repórter, mas dos próprios familiares. A sanha em dar a notícia em primeira mão respalda a crítica de que alguns poucos profissionais demonstram insensibilidade ante uma tragédia.

Enquanto seres humanos, o triste destino de Gugu nos ensina o real valor do altruísmo. O animador de TV deixou expresso o desejo para que os familiares doassem todos os seus órgãos. Segundo os médicos, os transplantes podem beneficiar até 50 pessoas. O Brasil tem atualmente cerca de 45 mil pacientes à espera de um órgão, muitos deles entre a vida e a morte. Tabus, medos infundados e crenças religiosas impedem muitos brasileiros de se tornarem doadores. Se soubessem o bem que fariam ao próximo, talvez deixassem a resistência de lado.

Uma das imagens que mais me comoveu foi a de um pai que cruzou os Estados Unidos de bicicleta para ouvir o coração da filha batendo no peito de outro homem. Bill Conner não conteve o choro. Uma parte de Abbey, morta em um acidente na piscina, continuava viva em Loumonth Jack, que descobriram meses antes um problema cardíaco irreversível. Outras três pessoas receberam órgãos da moça. Gratidão é a essência dos sentimentos experimentados por quem tem uma nova chance de seguir respirando. O gesto de Gugu e de tantos outros brasileiros dotados de consciência altruísta merece aplausos e, sobretudo, respeito e admiração.

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