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Correio Braziliense

Artigo: Quando? Onde? Façam suas apostas

''Essas mobilizações apresentam três características marcantes: não possuem lideranças institucionalizadas (partidos ou sindicatos, por exemplo); são articuladas pelas redes sociais; e se iniciam com baixa adesão das pessoas, mas, em pouco tempo, se multiplicam para milhares ou milhões, principalmente como resposta à repressão violenta das forças de segurança''


postado em 29/11/2019 11:45

A principal lição é constatar que governos e partidos têm tido enorme dificuldade para lidar com a situação. Continuam utilizando ferramentas de análise do século 20, que são ineficazes para o século 21(foto: Caio Gomez/CB/DA Press)
A principal lição é constatar que governos e partidos têm tido enorme dificuldade para lidar com a situação. Continuam utilizando ferramentas de análise do século 20, que são ineficazes para o século 21 (foto: Caio Gomez/CB/DA Press)
Desde 2011, o mundo tem experimentado uma série de manifestações populares gigantescas. Iniciada com a Primavera Árabe na Tunísia, espalhou-se para Egito, Líbia e Síria. Na Espanha, o movimento Indignados  deu origem à articulação Democracia Real Já, que promoveu acampamentos em praças públicas em todo o país e, nos EUA, o Occupy Wall Street realizou, durante meses, manifestações em várias cidades.

Passados dois anos, foi a vez do Brasil, partindo dos protestos organizados peloMovimento Passe Livre, contra o aumento nas tarifas dos ônibus municipais, chegando ao famoso junho de 2013 e invadindo 2014 com protestos relativos aos gastos com a Copa do Mundo. Em seguida, em 2016, as mobilizações pelo impeachment de Dilma e em apoio à Operação Lava-Jato, avançando por 2017 e 2018. Simultaneamente, tivemos os 10 dias de greve dos caminhoneiros em maio de 2018. 

É obrigatório citar o movimento dos Coletes Amarelos, na França, iniciado em outubro do ano passado e que perdura até hoje. E, em 2019, Hong Kong, Chile, Equador, Bolívia, Haiti, Líbano e Iraque vêm sendo sacudidos por contínuas e gigantescas manifestações. Após quase uma década, estamos colocados diante de algumas questões.  O que há de comum entre esses movimentos? Quais são os gatilhos? Existem lições que possam ser extraídas? São perguntas que têm instigado reflexões da academia, dos governantes, dos analistas e cujas respostas ainda estão distantes de consenso. Assim, vou ousar dar aqui meus pitacos, como contribuição ao debate, mas sem pretensão de esgotar o tema.

Essas mobilizações apresentam três características marcantes: não possuem lideranças institucionalizadas (partidos ou sindicatos, por exemplo); são articuladas pelas redes sociais; e se iniciam com baixa adesão das pessoas, mas, em pouco tempo, se multiplicam para milhares ou milhões, principalmente como resposta à repressão violenta das forças de segurança.

Podem ser divididas em quatro tipos de gatilhos: a luta por democracia, como ocorrido na Tunísia, Egito, Síria, Espanha, Hong Kong e Bolívia; a luta contra ações governamentais que afetavam a mobilidade urbana, com aumento nos preços do diesel ou das passagens dos transportes públicos, como se passou na França, Equador, Chile e Brasil; a luta contra a corrupção, como no Brasil, Iraque e Haiti; e a luta contra o cerceamento da liberdade de uso das redes sociais, como no Líbano e Hong Kong.

A principal lição é constatar que governos e partidos têm tido enorme dificuldade para lidar com a situação. Continuam utilizando ferramentas de análise do século 20, que são ineficazes para o século 21. Não entenderam que o advento das redes sociais passou a permitir uma articulação poderosa, instantânea e policêntrica. Na Tunísia, um jovem imolou-se em frente a um prédio do governo em protesto por ter sua banca de frutas confiscada e por se recusar a pagar propina. Um parente divulgou na internet um vídeo com as imagens da imolação, e a população tomou as ruas, levando à queda do presidente um mês depois.

Também é relevante ver como as forças políticas estimulam o sentimento de medo, buscando identificar nos oponentes os responsáveis pelo quadro causador das manifestações e apresentando-se como “salvadoras da pátria”, normalmente por meio de uma liderança carismática. Complementam essa ação com narrativas que tratam de apontar um inimigo claro de modo a estabelecer uma polarização nós x eles. Para isso, não hesitam em recorrer à velha teoria da conspiração, criando no imaginário coletivo a figura do agente externo, cuja finalidade é desestabilizar governos aliados mundo afora. Afinal, o binarismo sempre foi uma saída simplista presente na história da humanidade. Bons exemplos atuais são a guerra Trump x China e, no Brasil, bolsonarismo x lulismo. 

Por seu lado, a tecnologia, que propiciou o crescimento das redes sociais, trouxe reflexos gigantescos que, para além do relacionamento interpessoal, modificam radicalmente processos produtivos e relações econômicas. Vivemos no mundo dos aplicativos e do trabalho remoto. Some-se a isso o esgarçamento da democracia representativa decorrente dos vícios que têm marcado a atuação de partidos políticos, sindicatos, governos e está criado um caldo de cultura que combina ceticismo e revolta.

Qual a conclusão? Bem, só dá pra afirmar que esses movimentos de multidões vieram pra ficar e, desgraçadamente (ou não), é impossível prever quando e onde vai surgir o próximo. Façam suas apostas!

*Consultor de estratégia

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