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Correio Braziliense

Engajando cidadãos no mundo da ciência

A ciência está entre as atividades humanas com maiores taxas de crescimento


postado em 08/12/2019 04:15 / atualizado em 08/12/2019 15:36

(foto: University of Malaga/Divulgação)
(foto: University of Malaga/Divulgação)

A ciência está entre as atividades humanas com maiores taxas de crescimento, fato comprovado nos últimos três séculos pelo número de cientistas que se multiplica por três a cada vez que a população mundial dobra. A maior parte desse período foi dominada por um modelo de geração de conhecimento que pode ser caracterizado como “ciência para a sociedade”, em que cientistas educados e treinados para a produção, revisão e verificação de conhecimento buscam soluções e respostas para os problemas e questões que julgam mais relevantes.  Esse modelo, ainda fortemente enraizado no mundo da ciência, é baseado na crença de que cidadãos não cientistas compõem um público passivo e não especializado que deve ser excluído da produção e da verificação do conhecimento.

À medida que migramos de uma sociedade industrial para uma sociedade do conhecimento, um modelo alternativo de “ciência com a sociedade” ganha cada vez mais espaço.  Esse é um modelo alimentado pela expectativa por uma ciência mais aberta, inclusiva e participativa — movimento crescentemente explorado por cientistas, comunicadores, educadores, formuladores de políticas e outros públicos.  Esse é também um modelo influenciado pelo fato de a ciência ter se tornado mais presente na vida dos cidadãos, como a principal provedora de conhecimentos para formulação de políticas, além de base para inovações que impactam a vida de todos.  Ademais, ciência e mídia estão cada vez mais associadas, permitindo que cientistas dialoguem com a sociedade em busca de apoio público a suas pesquisas.

Mas as mudanças não param aí.  Em coerência com o ritmo alucinante de transformações na sociedade moderna, já vemos despontar algo ainda mais ousado na relação da ciência com os cidadãos — um modelo que pode ser caracterizado como “a sociedade na ciência”.  Esse modelo emerge em função da evolução das tecnologias da informação e da comunicação (TIC), que permitem o compartilhamento de informações via Web, a qualquer momento e em qualquer lugar.  A facilidade de acessar informações de múltiplos lugares e pessoas deu origem a um novo modo de cooperação, descrito como crowdsourcing, junção das palavras do inglês crowd (multidão) e source (fonte).

Crowdsourcing é forma genial de combinar esforços de uma legião de voluntários motivados por um interesse comum, cada um contribuindo um pouco, mas cuja soma gera um resultado maior.  O melhor exemplo de crowdsourcing é a enciclopédia virtual Wikipedia, criada por meio da colaboração de internautas para preparo de conteúdos e correção de informações.  A versão em inglês da Wikipedia conta com 6 milhões de artigos e recebe cerca de 580 novos textos todos os dias.  São os recursos de crowdsourcing que estão permitindo atrair cidadãos para o mundo da ciência, agora não apenas como espectadores passivos, mas como atores ativos capazes de coprojetar estudos e cocriar conhecimento com a supervisão de pesquisadores.

Com avanços nos processos de crowdsourcing, o crescimento da participação ativa dos cidadãos no mundo da ciência não pode mais ser ignorado, ainda mais com a evolução extremamente rápida das tecnologias que estimulam interação e colaboração.  Estima-se que 6 bilhões de smartphones estarão em circulação até o final de 2020, equipados com câmeras, microfones, acelerômetros, medidores de pressão e inúmeros outros artefatos operando com aplicativos de fácil utilização, permitindo que legiões de cidadãos coletem e compartilhem dados de toda ordem.  E o interessante é que a aceitação da participação ativa dos cidadãos nos processos de descoberta e inovação científica pode, finalmente, levar à superação de graves lacunas de dados em vários campos do conhecimento.

A ciência promovida com ativo envolvimento dos cidadãos pode, por exemplo, contribuir com dados que permitam o monitoramento do progresso e o planejamento de ações no âmbito dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), agenda acordada em setembro de 2015 pelos líderes de 193 países, com o objetivo de criar um planeta mais próspero, equitativo e saudável.  Os 17 objetivos acordados incluem metas em temas nos quais é notória a carência de dados, como erradicação da pobreza, segurança alimentar, educação, saúde, energia, água, mudança do clima —  escassez difícil de ser superada pelos métodos convencionais de coleta de dados, o que limita substancialmente o trabalho de pesquisadores e formuladores de políticas públicas.

Uma barreira ao uso de dados gerados por cidadãos voluntários é a desconfiança em relação à sua qualidade.  Mas a boa notícia é que pesquisadores em diversas instituições e áreas do conhecimento já têm desenvolvido boas práticas e treinamento que permitem assegurar que a qualidade dos dados coletados por cidadãos se compare às fontes de dados oficiais coletadas por especialistas, a custo muito menor.  Uma esperança para o fortalecimento da relação da ciência com as comunidades e dessas com os processos de formulação e melhoria de políticas públicas.

Não há mais dúvidas de que a parceria entre pesquisadores e cidadãos é essencial para ampliar o engajamento da sociedade no mundo da ciência e para fortalecer decisões baseadas em rigor científico.  Além de contribuir para a superação da carência de dados que alimenta a desinformação e a proliferação de notícias falsas, fenômenos que crescem de forma descontrolada e que colocam a sociedade em risco.

*Pesquisador da Embrapa

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