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Correio Braziliense

Artigo: Em defesa de Brasília, com a ajuda da imprensa

É preciso que a imprensa diga, em letras maiúsculas (como são as manchetes negativas), que Brasília foi feita para unir o Brasil


postado em 09/12/2019 04:34 / atualizado em 09/12/2019 14:03

Quando Juscelino Kubitschek, na campanha para a Presidência da República, anunciou a mudança da capital federal para o interior do Brasil, intelectuais e políticos do Rio de Janeiro, mais os funcionários públicos federais, que temiam perder a proximidade da praia, foram contra. Mas JK resistiu, mostrou a competência do povo brasileiro e mudou o comportamento político então reinante. Brasília foi construída — e deu certo, tanto que virou Patrimônio da Humanidade.

Quem construiu Brasília não foram só os candangos pioneiros, JK, Oscar, Lucio Costa e outras figuras históricas. Depois deles, quem faz de fato Brasília se efetivar como terra da gente é a sua cidadania. Ou seja, além dos que construíram fisicamente a capital, há as pessoas que fazem parte da vida efetiva do DF vivendo aqui — os cidadãos.

Foi muito difícil a tarefa de construir a cidadania com pessoas sem raízes aqui, terra ocupada por brasileiros de todos os rincões. As entidades comunitárias e as igrejas, integrando as pessoas, e a imprensa, apoiando as demandas da comunidade, ajudaram muito na construção, imprescindível a uma cidade-estado, fato que mais desagrega do que une.

Para que a cidadania se afirmasse, com o pertencimento da cidade, era necessária a participação popular nos atos do governo. E foi aí que a imprensa teve papel preponderante: quando havia algum problema coletivo, tanto na monumental Brasília quanto nas modestas cidades-satélites, o povo recorria à imprensa — à grande e à comunitária.

“Liga pra Globo!”, “liga pro Correio”, liga pro Jornal Satélite!”— era o que mais se ouvia e se ouve. A iniciativa cidadã tem dado resultados. As autoridades governamentais, logo que são procuradas pelos veículos de comunicação, para manter a imagem e até os cargos, providenciam a solução. E o buraco é tapado, a segurança recuperada, o problema resolvido.

Consolidada como cidade e como capital federal, Brasília tem sofrido muito ultimamente. É que o Brasil, mesmo depois das eleições, está dividido — e é em Brasília que ocorrem os fatos políticos, na maioria acompanhados por críticas negativas. Com isso, voltaram à tona os detratores da cidade, ofendendo os cidadãos que tão bem os acolhe. 

Dois exemplos: foram manchetes da grande imprensa a atitude do presidente Bolsonaro ao colocar como slogan de campanha a legenda “Mais Brasil, menos Brasília!” e o desabafo do ministro Moro, que reclamou: “Brasília é cheia de intrigas”.  Aproveitando a onda negativa, deputados do Rio de Janeiro estão tentando repartir o Fundo Constitucional, que garante, basicamente, a segurança necessária à nova capital, com a antiga capital, alegando que o Rio foi prejudicado com a mudança.

E aí? A quem cabe a defesa de Brasília? Essa tarefa deveria ser exercida pelos representantes políticos, que pisam em ovos para rebater o que diz um presidente da República, um ministro da Justiça ou a grande imprensa.  E aí a tarefa acaba sendo mais um dever da cidadania, a que mais sofre com as afirmações que não levam em consideração que Brasília nada tem a ver com o que acontece no Palácio do Planalto, no Congresso Nacional e na Esplanada dos Ministérios.

Posto o fato, o que a cidadania de Brasília e do DF espera? Que os editores e analistas políticos tenham mais cuidado quando falarem de Brasília, difundindo a informação de que Brasília é apenas a cidade que abriga os políticos que o Brasil manda para cá. Que Brasília nada tem a ver com a politicagem.

Também é preciso que a imprensa diga, em letras maiúsculas (como são as manchetes negativas), que Brasília foi feita para unir o Brasil. E que, na condição de capital de todos os brasileiros, é a cidade em que a Política, com P maiúsculo, pode resolver os problemas que afligem o Brasil. Como fez Juscelino no então hostil Planalto Central, construindo Brasília e promovendo a união do Brasil e como fizeram, em Brasília, os constituintes que redigiram a nossa Constituição cidadã.

* Advogado, jornalista e escritor. Preside a Confraria dos Cidadãos Honorários de Brasília

 

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