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Correio Braziliense

Artigo: Porta aberta

''O governo federal fala de números espetaculares na economia, promete futuro radioso, mas não é capaz de olhar para o lado e verificar suas fraquezas no presente''


postado em 10/12/2019 14:58

''O surgimento de petróleo bruto em centenas de praias do Nordeste provocou reclamações, exclamações e a procura de responsáveis. Mas não há explicações.''
''O surgimento de petróleo bruto em centenas de praias do Nordeste provocou reclamações, exclamações e a procura de responsáveis. Mas não há explicações.''
Escândalos no Brasil são tão comuns que as pessoas não reclamam mais. Nem se mostram preocupadas. O governo federal fala de números espetaculares na economia, promete futuro radioso, mas não é capaz de olhar para o lado e verificar suas fraquezas no presente. O surgimento de petróleo bruto em centenas de praias do Nordeste provocou reclamações, exclamações e a procura de responsáveis. Mas não há explicações.

O acidente ocorreu, segundo estudos produzidos em universidades, no final de julho. O governo federal demorou a perceber o ocorrido. Somente em setembro começou a agir. Mandou a Marinha ir atrás dos responsáveis. Empresa privada em Brasília que presta serviços de georreferenciamento passou os dados para os militares. Eles foram atrás do navio grego. Os proprietários da embarcação negaram tudo. E a situação retornou ao estágio anterior. Ninguém sabe de nada, nem viu coisa alguma. Ou seja, a origem do petróleo é misteriosa.

Diversas conclusões devem ser retiradas do episódio. A primeira delas é que a longa, rica e populosa costa brasileira é área inteiramente aberta ao mundo. Não há nenhum tipo de controle, vigilância, fiscalização ou o mínimo de observação. A Marinha nem sequer sabe quais são as embarcações que, neste momento, estão navegando no Atlântico Sul nas proximidades da plataforma continental brasileira. Essa é uma séria questão de segurança pessoal e nacional.

Segurança pessoal porque a costa brasileira é infestada de piratas. Não existe mais o pirata da perna de pau, com espada na cintura. Existe o ladrão armado que encosta no veleiro tripulado por poucas pessoas, comete o assalto e, se encontrar resistência, joga as vítimas ao mar. Existem vários relatos de navegadores estrangeiros sobre o perigo de velejar na costa brasileira. Não há controle nenhum. Claro que, diante de uma porta aberta deste tamanho, o contrabando é prática normal. Barcos de médio porte podem chegar muito perto da costa para desembarcar sua carga sem problema ou susto. Além disso, existem ancoradouros clandestinos.

Aliás, a Polícia Federal sabe que a Baía da Guanabara está dominada pelos traficantes de drogas. Várias ilhas que eram procuradas por turistas hoje foram transformadas em armazéns para guardar vários tipos de drogas e contrabando. Isso acontece no Rio de Janeiro. Significa que se reproduz em vários outros pontos do extenso e belo litoral brasileiro. Controle zero. Nos rios da Amazônia, existe alguma fiscalização, reduzida diante da monumentalidade do cenário. E os brasileiros não fiscalizam a foz do Rio Amazonas. Os ingleses há muito tempo ensinaram que aquele que controla a foz, controla o rio inteiro. Não é por acaso que eles não pretendem sair das ilhas Falklands/Malvinas, situadas em frente ao Estreito de Magalhães. Londres controla a navegação no extremo sul do Atlântico.

A Marinha brasileira é muito bem organizada, hierarquizada, branca, limpa e toda ela concentrada no Rio de Janeiro. Seu contingente é menor do que a Polícia Militar de São Paulo. Recentemente, por intermédio do acordo com o governo francês, oficiais de Marinha desenvolveram os estaleiros de Itaguaí no sul do estado. Ali estão sendo construídos os submarinos franco/brasileiros. Depois será produzido o primeiro submersível nuclear nacional. Mas tudo perto do Rio. A Marinha é carioca. A única exceção fica na Bahia, onde estão os navios de casco de madeira.

Já houve um debate interno e a tentativa de colocar a segunda armada na ilha do Medo, na entrada da baía de São Marcos, em São Luís do Maranhão. Paraenses também pugnaram pela chegada dos marinheiros. Mas nada prosperou. Fuzileiros Navais têm quartel em Brasília e no Rio de Janeiro, naturalmente. A base de submarinos fica debaixo da ponte Rio/Niterói exposta à curiosidade pública.

A costa norte do Brasil está desprotegida. Os voos para Europa, Ásia, Oriente Médio passam por cima do Ceará. A produção dos poços de petróleo no mar territorial brasileiro se estende dos estados do Nordeste até São Paulo. E ninguém sabe o que navega por ali. O risco é enorme. Mas a Marinha construiu uma base aérea em São Pedro d´Aldeia, região dos lagos, no estado do Rio, onde mantém alguns aviões A-4 Skyhawk, produzidos há muitos anos pela McDonnell Douglas. Trata-se de equipamento antigo, destinado a operar em porta-aviões. No entanto, ele não existe mais. O poderoso da frota agora é um porta-helicóptero. O velho São Paulo está indo a leilão, nestes dias, para virar ferro velho.

*Jornalista

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