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Correio Braziliense

Artigo: Brasília além do plano


postado em 15/12/2019 04:04 / atualizado em 15/12/2019 10:47

Lá no comecinho, Brasília era, para mim, trabalho. Espaço de investigação jornalística, de absurda curiosidade, de fontes e mais fontes de informação. Aos poucos, a cidade inventada ganhou outros contornos e significados. Amigos, família, filhos, céu, mais céu, arquitetura, Lucio Costa, Oscar Niemeyer, monumentos. Aos poucos, me apropriei da história, passada e presente. Ouvindo causos dos amigos, pesquisando, lendo matérias, fazendo e refazendo especiais de aniversário aqui no Correio, escrevi dentro de mim a biografia de Brasília. Assistindo a um trechinho de Eduardo e Mônica — o filme, que vai estrear ano que vem, me dei conta do tanto de história e lembrança que já guardamos dessa jovem cidade.

Seus ícones, o rock, as bandas, as confusões políticas... Toda essa memória virá novamente à tona quando Brasília completar seus 60 anos. Quem e o que vai compor esse imenso glossário de significados que se formou em seis décadas de Brasília? Todos nós, é certo. Penso na capital como jovem senhora de forma diferente hoje. Não há saudosismo, embora haja orgulho da trajetória. Mais do que reverenciar o passado, hoje olhamos e nos preocupamos com o futuro.

Brasília, a despeito de manter ainda uma condição de boa qualidade de vida, já não é aquele oásis em meio a um deserto de oportunidades. Sempre foi considerada um lugar para onde as pessoas vinham e tinham mais chances de crescer, prosperar, passar em concurso, morar bem, ter acesso a serviços públicos de qualidade. Ainda é uma boa cidade para viver, com situação melhor do que várias outras unidades da federação, mas é certo que a maturidade e o crescimento desordenado impõem problemas de ordens diversas. Já não é tão calma, nem tão próspera, nem tão promissora. Já não basta chegar e batalhar um pouquinho.

Os tempos mudaram. A capital da política e do concurso público precisa encontrar novas vocações. É certo que a apropriação dos espaços públicos pelos jovens nascidos e criados aqui concedeu um ar refrescante à cidade. Uma geração inventiva e fértil, que só vai permanecer por aqui se houver uma melhor simbiose entre o público e o privado, incentivo para novos negócios, espaço para crescer. Tecnologia, cinema, espaços colaborativos, escolas e projetos que sirvam de modelo para o mundo e, definitivamente, o fim do apartheid com as regiões mais periféricas.

Aos 60 anos, Brasília precisa entender que não é mais plano nem piloto. É realidade concreta e com diferenças abissais. Brasília é muito mais do que o quadradinho e precisa incorporar todas as suas dimensões para evoluir. Deve fazer isso preservando sua história, sua memória, seu projeto arquitetônico, seu patrimônio. É difícil, mas não é impossível. 

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