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Correio Braziliense

Artigo: Educação e desigualdade

Dependendo do serviço oferecido, a educação pode aumentar ou diminuir a desigualdade


postado em 16/12/2019 04:15 / atualizado em 16/12/2019 14:05

A educação, a economia e a desigualdade estão intimamente relacionadas. Nenhum país se torna próspero e avançado sem investir em educação. Segundo a OCDE, nosso PIB poderia ser 7 vezes maior com mais investimento no ensino básico. Coreia do Sul, Vietnã e Portugal são exemplo de países que conseguiram parte do sucesso econômico graças à educação, que é essencial para formação das lideranças. Uma empresa de headhunting mostrou que 60% dos recrutadores têm dificuldade em encontrar profissionais. Já do outro lado, países ricos têm mais recursos para investir em escolas, creches e universidades e, assim, criam uma bola de neve virtuosa: mais educação de qualidade leva a mais riqueza, que leva a mais investimento em educação e nas ciências.

O que dizer sobre educação e desigualdade? Dependendo do serviço oferecido, a educação pode aumentar ou diminuir a desigualdade. Uma linha teórica diz que a educação é “a grande equalizadora”, colocando pobres e ricos em pé de igualdade na competição por melhores oportunidades. No mundo real, isso só acontece em sociedades que conseguem oferecer educação de excelência para todos. Do contrário, os sistemas educacionais funcionam como mais um ator de reprodução da desigualdade, já que os ricos têm as melhores oportunidades educacionais. Ao mesmo tempo, é mais fácil ter bons resultados educacionais em sociedades homogêneas. Isso explica parte do sucesso da Suécia, do Canadá, da Estônia, da Finlândia.

Pensando nessa relação, criei uma comparação dos seguintes dados: 1) Resultados do Pisa em leitura, que acabam de ser divulgados pela OCDE; 2) O produto interno bruto (PIB)com base na paridade do poder de compra per capita, que é o valor final de todos os bens e serviços produzidos pelo país em um ano, convertido em dólares internacionais, dividido pela população média, de acordo com o Fundo Monetário Internacional; 3) O índice de Gini (mede a desigualdade dos países), de acordo com o Banco Mundial; 4) A população atual dos países. No caso da China, adicionei as populações dos territórios chineses que participaram do Pisa.

A população é importante, porque é mais fácil fazer boa gestão com pequenos grupos e em pequenos territórios. Assim, é injusto comparar o Brasil à Cingapura (ilha com 5,8 milhões de habitantes). Nesse quesito, conseguimos comparar o Brasil com os territórios chineses, os Estados Unidos e a Rússia. EUA e Rússia são bem mais ricos e têm longa tradição de investimentos e reformas educacionais, inclusive por causa das guerras. Os dois países sempre compreenderam que a educação, as ciências e a tecnologia são os ativos mais importantes para liderar competições e vencer guerras.

Ao comparar resultados do Pisa com o PIB, é possível observar uma correlação, com raras exceções. Em geral, quanto mais rico o país, melhor será seu resultado. Entre os 20 primeiros, os únicos que não têm valor de PIB per capita maior do que US$ 30 mil são China, Estônia e Polônia, que participaram do bloco comunista e investiram maciçamente em educação. Para países comunistas, a educação era estratégica para o sucesso da revolução popular e para o desenvolvimento do país. Esperava-se formar revolucionários leais, que estabeleceriam nova ordem, e a formação de trabalhadores competentes, que assumiriam complexas tarefas na modernização do Estado.

Na China, não há liberdade política ou de imprensa, e há grande pressão sobre a performance dos professores e dos alunos, que têm de estudar cerca de 10 horas por dia. Além disso, cientistas questionam se os bons resultados continuarão com a inclusão das regiões mais pobres. Fatores positivos desse caso são a continuidade das políticas públicas, ao mesmo tempo em que há alto investimento em novas tecnologias e inovações, a boa infraestrutura das escolas, a seleção e formação dos professores, que são supervalorizados pela sociedade, até com uma política nacional de valorização salarial.

Com relação à desigualdade, apenas dois países com índices Gini relativamente altos fazem parte da lista dos 20 países com melhores resultados: Cingapura e Estados Unidos. O primeiro, é uma cidade-estado elitista, que não diminui a desigualdade por questões políticas. Ainda assim, consegue oferecer educação de excelência para todos os alunos, tendo o tamanho geográfico e populacional como facilitadores. Já a desigualdade norte-americana é um dos principais fatores que explicam os resultados insatisfatórios. A desigualdade cresce desde os anos 80 e não se dá apenas por causa das políticas educacionais, mas também por políticas econômicas, como a diminuição da tributação dos mais ricos.

Ao contrário dos países mais ricos e dos que foram comunistas, investimos muito pouco historicamente e nunca priorizamos a educação. Ainda somos um país bastante desigual e relativamente pobre, e isso não vai mudar sem uma gestão eficiente e mais recursos. Entre as possíveis estratégias de investimento, há um único consenso entre especialistas nacionais e internacionais: nossos professores precisam ser bem selecionados, formados e valorizados, inclusive nos salários, nas carreiras, materiais e condições de trabalho. É isso ou continuar grande, pobre e mal-educado.

*Ex-secretário de Educação do Distrito Federal

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