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Correio Braziliense

Artigo: Ambiente favorável


postado em 23/01/2020 04:34 / atualizado em 23/01/2020 09:04

Ex-secretário especial da Cultura, Roberto Alvim(foto: Valter Campanato/Ag?ncia Brasil)
Ex-secretário especial da Cultura, Roberto Alvim (foto: Valter Campanato/Ag?ncia Brasil)
Pode parecer distante falar, hoje, na demissão de Roberto Alvim da Secretaria Nacional de Cultura. Mas não é. Primeiramente, é preciso reconhecer que o governo Bolsonaro tem errado violentamente na emissão de opiniões, começando pelo próprio presidente, algo que, aparentemente, dá passe livre para que seus auxiliares digam as bobagens que quiserem. Tem a infantilidade, como aquela do peixe que, “inteligente” como é, quando vê uma mancha, foge. Tem o reacionarismo religioso, que prega que “menino veste azul e menina, rosa”. Tem o descompromisso com a verdade histórica, quando o AI-5 ressurge com ares de panaceia. Tem o destempero autoritário, quando jornalistas são hostilizados e xingados.

Nada disso é perdoável, tampouco pode ficar escondido na justificativa de que o caminho, agora, é pela direita. São opiniões de uma gente imprudente e incapaz de compreender a liturgia que rege as funções públicas. Já se disse que, se os integrantes do governo fechassem a boca, talvez o país conseguisse avançar bem mais do que conseguiu até agora. A estratégia do atrito dos novos cruzados vem criando vários e poderosos Saladinos.

Alvim, no seu discurso, quis dizer exatamente o que disse. Não houve coincidência alguma com o fechamento do texto, quando cita as palavras de Joseph Goebbels, tampouco quando lembra a delirante “arte heróica” — uma expressão única como essa tem sempre dono — que o ex-ministro a Propaganda de Adolf Hitler defendia. O ex-secretário achou possível citá-la porque evocações ao nazifascismo têm sido vistas, com frequência perturbadora, desde que começou o governo Bolsonaro.

Ano passado, o presidente e o chanceler Ernesto Araújo defenderam uma teoria esdrúxula de que o nazismo foi um movimento de esquerda. Conseguiram chutar uma lista de respeitados historiadores, muitos publicados décadas atrás pela Biblioteca do Exército/Bibliex, que escreveram um sem-número de trabalhos importantes sobre o fenômeno da chegada de Hitler ao poder.

Recentemente, reportagens mostraram o ressurgimento do movimento integralista, que se sentiu à vontade para fazer manifestações públicas em São Paulo. Não se trata de patacoada de umas 20 pessoas inspiradas numa ilusão passadista. É uma turma que vê um momento favorável, no país, para que ideias assim proliferem.

Tem ainda episódios considerados folclóricos, como o cidadão que, em Unaí (MG), ano passado, foi para um bar vestido à moda SA (as Sturmabteilung de Ernest Röhm), suástica estampada no braço. Esse homem provavelmente acredita que as circunstâncias atuais favorecem sua atitude.

Alvim foi, mas o ambiente não mudou. O permanente estado de guerra cultural, no qual se condena tudo que é contrário e diferente ao pensamento do atual governo, mantém a porta aberta para o belicismo. Como testemunhou o repórter Olavo Soares, da Gazeta do Povo, quando Alvim, horas antes de ser mandado embora, dirigiu-se a um interlocutor avisando, entre outras coisas, que ali (na secretaria) não era “direita Nutella”. Ou seja, direita nível hard — que flerta com a “arquitetura” de Speer, com o “idealismo” de Rosenberg, com o “trabalhismo” de Ley, com o “jornalismo” de Streicher...
 
 

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