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Correio Braziliense

Artigo: Paulo Guedes, o meio ambiente e o papa Francisco


postado em 23/01/2020 04:34 / atualizado em 23/01/2020 09:10

Parafraseando o evangelista João (1Jo,4,20), quem disser: amo a Deus, mas odeia a natureza, é um mentiroso: pois quem ama a natureza, a quem vê, a Deus, a quem não vê, não poderá amar. Na cidade de Davos, Suíça, o ministro da Economia, Paulo Guedes, perante o Fórum Econômico Mundial, em 21 de janeiro de 2020, declarou que “o pior inimigo do meio ambiente é a pobreza. As pessoas destroem o meio ambiente porque precisam comer”. Vejo como equivocada a fala do ministro, uma vez que os pobres são vítimas do desmatamento, da destruição dos rios, dos ecossistemas e das florestas. A esse respeito, o cientista Carlos Nobre, com toda propriedade, deixou claro que o padrão de desmatamento brasileiro não tem ligação com a busca por alimento. Para ele, o desmatamento ocorre na África para o cultivo do alimento, mas por motivo da expansão populacional, enquanto que, na América do Sul, o desmatamento é para produção agropecuária. Na Amazônia, é principalmente pecuária e arremata que o modelo de desmatamento no Brasil não reduziu a pobreza, mas concentrou a riqueza na mão do grande agronegócio.

A propósito, a declaração do ministro encontra óbice na encíclica Laudato Si (Louvado Sejas), a primeira escrita pelo papa Francisco e publicada em junho de 2015. Em diversas oportunidades, chama a atenção para a qualidade da água disponível para os pobres, além do que os efeitos mais graves de todas as agressões ambientais recaem sobre as pessoas mais pobres. A poluição da água afeta particularmente os mais pobres que não têm possibilidade de comprar água engarrafada. A elevação do nível do mar afeta principalmente as populações costeiras mais pobres porque não têm para onde se transferir. Fala claramente, Sua Santidade, que a dívida externa dos países pobres se transformou num instrumento de controle, mas não se dá o mesmo com a dívida ecológica.

Essa preocupação do Santo Padre se direciona a todos nós, crentes e não crentes. É dizer que todos estão de acordo que a Terra é, essencialmente, uma herança comum, cujos frutos devem beneficiar a todos. É nessa linha que cita o patriarca Bartolomeu, de Constantinopla, que chamou a atenção para as raízes éticas e espirituais dos problemas ambientais, que nos convidam a encontrar soluções não só na técnica, mas também numa mudança do ser humano, caso contrário, estaríamos a enfrentar outros sintomas.

A Bíblia é pródiga em demonstrar a preocupação de Deus com o bem-estar do ser humano e o cuidado com a natureza, entre outros capítulos podemos citar: “No princípio criou Deus o céu e a terra” (Gn 1,1 ); “Iahweh Deus tomou o homem e o colocou no jardim do Éden para o cultivar e o guardar”(Gn 2,15); “Os céus contam a glória de Deus, e o firmamento proclama a obra de suas mãos.” (Sl 19,2); “De Iahweh é a terra e o que nela existe, o mundo e os seus habitantes” (Sl 24,1); “Fazes brotar relva para o rebanho e plantas úteis ao homem, para que da terra ele tire o pão e o vinho, que alegra o coração do homem para queele faça o rosto brilhar com o óleo, e o pão fortaleça o coração do homem” (Sl, 104, 14-15).

Portanto, não se pode colocar a culpa nos pobres pela devastação do meio ambiente. Deve-se, sim, valorizar as políticas públicas ambientais que vêm sendo sistematicamente ameaçadas no contexto mundial, com raras exceções, numa interpretação equivocada de que a natureza deve-se sujeitar ao homem e não o homem à natureza, razão pela qual deve o homem administrar e cuidar bem do meio ambiente. Devemos, pois, nas palavras de Milton Nascimento, em sua música Coração de Estudante, “cuidar do broto, para que a vida nos dê flor, flor e fruto.”
 
 
*Procurador do Ministério Público do Trabalho
 

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