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Correio Braziliense

Artigo: Bolsonaro, um novo guia?


postado em 25/01/2020 11:02 / atualizado em 25/01/2020 11:03

Ah, a falta que um lustro de cultura faz! Não precisa ter lido Virgilio no original latino, nem declamar o libreto de Tannhäuser, tampouco ser íntimo de Shakespeare, Voltaire ou Machado de Assis. Não precisa carregar uma calota de saber — uma camada fininha está de bom tamanho. Ponderação e bom senso seriam bom começo. E que ninguém se engane: o próprio eleitor, mesmo o mais simples, sabe que não se deve entregar chave de palácio a gente ignorante. Ele não quer que os dirigentes lhe sejam semelhantes; perspicaz, exige que sejam eficientes.

Vai pra 20 anos que os que nos dirigem — aqueles que, do andar de cima, manejam o leme e dão a direção à nave pátria — carecem desse lustrozinho de cultura. E parece que, conforme passa o tempo, o quadro piora. Na era lulopetista, as carências da alta cúpula eram, até certo ponto, compensadas pelas luzes de um punhadinho de assessores. Na era atual, a nudez intelectual do presidente não é atenuada, mas reforçada pelos rebentos, sancionada pelos principais conselheiros e ratificada por um guru boca-suja. Um drama sem aplausos.

Fica a desagradável impressão de que reina desconexão nos altos círculos. Os personagens tentam perseguir um objetivo comum, sem ter combinado o caminho. A ausência desse denominador comum abre a porta para fantasias individuais. Há quem aplique esforços a despejar tuítes venenosos sobre inimigos imaginários; há quem se faça entrevistar a fim de demolir adversários; há até quem se permita o soberano luxo de fabricar e difundir vídeo com pregação pseudonazista. Um despautério. É como se cada integrante do grupo que nos governa tivesse recebido as peças de imenso quebra-cabeça, sem receber o desenho da montagem. Juntam peças a esmo, sem saber direito o que vai dar. Uma aflição.

Faz uma semana, um cidadão de pomposo título — secretário especial da Cultura — deu clara mostra da desarticulação que confunde nossos poderosos. Encomendou e difundiu vídeo para dar ao povão um vislumbre de qual seja, no seu entender, o objetivo perseguido pelo atual governo. Explicou que, no campo da cultura a partir de agora, só serão admitidas obras que se coadunem com o pensamento do chefe. Um espanto.

A mise-en-scène foi bem cuidada. Bandeira nacional e retrato do presidente ao fundo atestam que o discursante é de alta patente e que suas palavras são a voz oficial do Planalto. (Só deixaram de sê-la quando uma grita planetária forçou o presidente a desautorizar o discurso.) O então secretário da Cultura pirateou uma fala de 1933 de Joseph Goebbels e a amoldou para combinar com as palavras que desejava pronunciar. Um escândalo.

Além da bandeira e do retrato, uma Cruz de Lorena, bem visível, adornava a escrivaninha. Todos viram nela um símbolo cristão, mas poucos atinaram com o fato de a extrema-direita francesa ter-se apropriado desse emblema há décadas. Na França, nos dias atuais, a cruz com barra dupla é símbolo da direita extrema, e está presente em todas as manifestações de rua dos fanáticos. Há ser nessa fonte que se inspirou o secretário caído.

As ideias andam descosturadas pelas bandas de um Planalto hoje cheio de gente de pouca visão. Nenhum deles — nem chefe, nem assessores — se dá conta de que a doutrina nazista e o Brasil não combinam. O pensamento nazista elegeu, como preceito maior e incontornável, a pureza racial. Num país como o nosso, em que a maioria tem sangue mestiço, a doutrina pode ser boa pra marchinha de carnaval. Na vida real, não serve. Outro postulado do nazismo é a unção de um chefe supremo, semideus venerado por todos, ao qual se deve respeito e obediência cega. Esse rigor e essa disciplina de aço não combinam com o gênio nacional, folgazão e jovial.

Faz quase um século, Getúlio Vargas conseguiu amarrar o país à sua estaca. Mas o Brasil era outro, nação agrícola e atrasada com esparsas bolhas de desenvolvimento extraviadas num mar de ignorância. Hoje mudou. Internet, zapzap & congêneres sepultaram definitivamente a era dos caudilhos. Entramos na modernidade. Não é um Bolsonaro qualquer que vai conseguir virar a mesa.
 
*José Horta, empresário e blogueiro

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