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Correio Braziliense

Pontos riscados na cidade-encantada: carnaval, cortejos de afoxés e banho de alfazema

O carnaval é, sem dúvida, a festa da carne, da negra carne cor de azeviche. Do corpo ancestral africano que dança, que sente, que se reorienta


postado em 15/02/2020 04:14 / atualizado em 15/02/2020 19:06

(foto: Jaqueline Maia/Diário de Pernambuco)
(foto: Jaqueline Maia/Diário de Pernambuco)
Enquanto escrevo ouço ao longe a certeza de que é quase carnaval e recordo dos versos feitos por mim para o afoxé Ogum Pá, do Ilê Axé T’Ojú Labá, onde sou integrante e filho, em Brasília. "É pele, é couro, é ouro, Ijexá nossa nação, é ancestral vivo, dentro do meu coração! No negro toque do agogô, da forja de Ogum para saudar Olorum, do cortejo da trinca de couro, estalam os toques do rum, é rua, é roda, xirê, candomblé, alfazema, erva sagrada, nos banhando de axé".

O carnaval, a festa popular mais politizada do mundo, segundo Luís Antônio Simas, é, no Brasil, a materialização da agência do negro, da sua condição de sujeito da história, autônomo e soberano. É o lembrar, o cantar e o dançar como um narrar a si mesmo na busca da reconstrução das experiências da travessia, das experiências da escravidão e, principalmente, das liberdades.

É, sem dúvida, a festa da carne, da negra carne cor de azeviche. Do corpo ancestral africano que dança, que sente, que se reorienta frente à relação individualizada, de aprisionamento da alma e do pecado que as culturas de base euro-cristã têm com o corpo. O corpo é a potência afetiva das ações, instância para esculpir a história, a memória e as identidades negadas em sucessivos processos opressores ao longo da história.

A dança, o ritmo, nas culturas negras/afrodiaspóricas, não é mero elemento técnico. Não se trata mais, apenas, de saber executar os passos, ou movimento perfeito. A dança integra o espaço e o tempo, reatualiza saberes, vivências, reconfigura o real em que vivemos, cria uma paisagem onde alguma coisa de encantamento acontece. Contam-se histórias por meio da dança, na qual o saber não apenas se aprende, incorpora-se.

Assim, ter e produzir conhecimento é também saber dançar, cantar, viver entre o riso e a risada, é ter na alegricidade a conformação e a confirmação do real. A dança é política, bem como a música, o ritmo, a nossa alegria. Esforços de remontar a imagem de si quebrada pela escravidão e pelo racismo, e de manter seus vínculos com a ancestralidade. É “o negro a cantar [...] derrubando fronteiras, para não ver a negritude marcada com a dor que a escravidão nos deixou”.

Com mais de cem anos, espalhados por todo o Brasil, os afoxés, exemplo dessa cultura negra/afrodiaspórica, e da relação histórica dos povos negros com o carnaval, com o ritmo, com a dança e a alegria. Expressão cultural que possui raízes e fundamentos nos terreiros de candomblé, tem seus primeiros registros, mesmo que de modo confuso, no final do século 19, com suas origens nos cortejos de Coroação dos Reis Congo. Já no século 20, passam a ocupar um outro lugar cultural e social, de resposta e combate à perseguição contra a cultura e a religiosidade negra, da ampliação e consolidação da organização política do negro brasileiro, fazendo surgir grupos importantes como o afoxé Filhos de Gandhi em Salvador, anos depois, Badauê e os pernambucanos Alafin Oyó e Ara Odé, por exemplo.

É nos cortejos de afoxé que redesenham as cidades brasileiras que negras e negros, parafraseando o Bloco Afro Ilê Ayê, renovam sua guerra, relembram de sua terra, reescrevem sua história. Onde arrastam o pé, e cai na cidade, o breu dessa multidão [Música – Exclusão, Bloco Ilê Ayê, Álbum – Canto Negro IV , onde o mundo cai na real, onde reafirmam que: “cada pedaço de chão, cada pedra fincada, um pedaço de mim [...][Música – Herança Banto, Bloco Ilê Ayê – Canto Negro IV .

“A felicidade do afoxé é dançar” e para além do seu conteúdo musical, seria, num esforço mais interpretativo do que de tradução, “a ação que faz”, onde afo ou fo quer dizer verbo ou algo como pronunciar/dizer e xé, algo como realizar-se. Podendo ser ainda a “a fala que faz” ou “a fala que faz o encantamento”. O que me faz pensar na centralidade da palavra, da fala, da oralidade. Palavra como movimento dinâmico da vida que realça a inscrição da memória africana no Brasil, nos métodos e processos de resguardo e de transmissão do conhecimento, nos atributos e propriedades instrumentais das performances, nas quais o corpo dança, performa, escreve. Uma forma poética, mais uma das muitas artes da palavra transladadas de África e hoje, encontradas nas culturas de matriz africana.

Os cortejos de afoxés definidos como candomblé na rua riscam pontos e produzem uma cidade-outra, uma cidade-terreiro, onde habitam as falanges de encantados e orixás. Agenciam um território negro, mesmo que efêmero e trans(e)itório, encantado e ancestral, que tenciona e implode as cidades que em seus monumentais espaços vazios tentam invisibilizar a presença negra, silenciar suas memórias, histórias e culturas.

O carnaval é agência das comunidades negras que nos diz sobre a recuperação dos laços rompidos, nos ajuda a entender que a história dos negros nas Américas foi [e é] escrita numa narrativa de migrações e travessias, nas quais as vivências do sagrado, de modo singular, constituem referência de resistência cultural e de sobrevivência ancestral africana. É a biointeração das existências que dançam, cantam e produzem a cosmoencantaria política das ruas. É em especial, aos povos negros, um lembrar nós mesmos, um reencontro, um refazer, um remontar e um reconstruir de si.

* Faratobi de Odé, historiador, mestre em preservação do patrimônio cultural e em desenvolvimento, sociedade e Coop. Internacional
 

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