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Correio Braziliense

Artigo: Zé João e a pedra fundamental

Zé João, como passou a ser chamado, veio construir o Correio Braziliense. É a nossa verdadeira pedra fundamental


postado em 16/02/2020 04:05 / atualizado em 16/02/2020 15:21

(foto: Ed Alves/CB/D.A Press)
(foto: Ed Alves/CB/D.A Press)
José João não tinha sobrenome pomposo. Naquela época, falava-se muito de gente que assinava Kubitschek, Chateaubriand, Niemeyer e por aí vai. Sem faixa, sem poder, sem escrita forte, sem títulos, veio lá de Conceição do Mato Dentro quatro dias sacolejando na boleia de um caminhão. De Minas Gerais à nova capital em construção, chegou como tantos outros candangos, pioneiros que ergueram tudo isso aqui, inclusive este jornal.

 

Zé João, como passou a ser chamado, veio construir o Correio Braziliense. É a nossa verdadeira pedra fundamental. O repórter Marcelo Abreu o reencontrou para reportagem publicada hoje, que faz parte da série Brasília Sexagenária, uma homenagem aos pioneiros desta capital, aos anônimos que ainda hoje se emocionam com a saga da construção de Brasília. Logo na entrada da casa de dois pavimentos no Riacho Fundo, encontramos Zé e as imagens de Nossa Senhora — três delas para honrar o tanto de reza no caminho. A devoção o ajudou a enfrentar os 100 dias épicos de Brasília, que se tornaram o início de uma nova vida. Zé adotou Brasília e jamais voltou à cidade natal.

 

Aos 85 anos, ele lembra com lucidez pequenos feitos comemorados como provas de resistência. Como tomar café, junto aos outros operários, companheiros de luta e suor, quando a primeira parede ficou pronta. A primeira parede em que as chuvas daquele rigoroso janeiro de 1960 deixaram ficar em pé. “A gente construía, vinha a chuva e derrubava tudo. A primeira parede em pé foi motivo de muita alegria”, ele conta.

 

Na reportagem, Abreu resgata a coluna do nosso saudoso Ari Cunha, fundador deste jornal e pioneiro do jornalismo candango, de 1976, em que ele se referia a José João: “Desde o primeiro tijolo, estava José João, até hoje nosso companheiro. Era ele quem acompanhava tudo da obra”. Construir este jornal foi obra de jornalistas visionários, mas também de pioneiros como Zé. Para inaugurar junto com a capital, no fim da obra, havia uns 500 candangos vivendo e trabalhando na sede do Correio, de 16 a 18 horas por dia.

 

Contar a história de José João, com a inestimável colaboração de Chiquinho do Cedoc, é uma honra. Falar dos pioneiros às gerações que os sucederam em Brasília é mostrar a importância de ainda termos entre nós testemunhas vivas da saga da construção. Ao longo de tantas décadas, fizemos cadernos, séries, suplementos, páginas e páginas dedicadas aos pioneiros. A ideia é reapresentar Brasília à própria história, dando voz a quem chegou no início de tudo, na era pré-forma, na era barro-projeto-sonho. Não sei se você se pega de vez em quando imaginando aquele início, aquela imensidão vermelha, aquele cerrado inclemente. Eu, sim. Mas nem no maior esforço saberemos, de fato, o que foi aquilo tudo. Por isso, devemos ouvi-los. É desse testemunho oral dos candangos que é feita nossa história.
 

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