Opinião

Artigo: Ó abre alas que eu quero passar

Viva, é carnaval! Durante os próximos cinco dias a maioria das pessoas vai se entregar aos braços de Momo, deixando de lado as agruras do dia a dia e só querendo ir atrás de blocos de rua ou trios elétricos. Porém, não podemos deixar de escrever sobre o que ocupará boa parte do tempo da mídia e das redes sociais após os dias de folia. Refiro-me às próximas eleições. Algumas pessoas poderão dizer que ainda faltará muito tempo até outubro, mas quem participa da atividade política sabe que esse tempo voa!

 

Para dar um exemplo, no último fim de semana, o movimento cívico RenovaBR promoveu um treinamento intensivo para os 620 alunas e alunos no módulo avançado de seu curso iniciado em agosto de 2019. Durante quatro dias, participantes de 26 estados puderam assistir a  palestras com especialistas sobre diversos temas com vistas à preparação de futuras candidaturas às prefeituras e câmaras municipais. Ressalte-se que cerca de metade dos presentes não tinha, até então, qualquer filiação partidária.

 

No site do movimento está afirmado: “Se o país é de todos, a política também tem que ser”. Lá também é possível ver um texto que, diante da pergunta “O que é ser comum?”, concluem com a seguinte afirmação: “Por isso, o RenovaBR prepara pessoas comuns para serem políticos fora do comum”. Cito especificamente essa iniciativa, mas diversos outros movimentos cívicos têm trabalhado de forma cada vez mais intensa para criar condições que permitam a inserção de pessoas sem experiência política anterior nas disputas eleitorais. Tenho abordado esse tema no meu site focanaestratégia.com e nas minhas redes sociais, além de alguns artigos publicados nesse espaço.

 

A situação política vivida em nosso país a partir de 2013 apresenta características tais como o crescimento vertiginoso da utilização das mídias e redes sociais nas campanhas, a valorização do protagonismo individual independentemente das estruturas orgânicas, a crítica virulenta ao “politicamente correto”, a contestação da política dita tradicional e de quem a representa na base do “sou contra tudo isso que está aí”. Uma das consequências foi o tsunami que se abateu sobre diversas lideranças políticas históricas e sua substituição por caras novas que representaram, no momento da eleição, a combinação de protesto com renovação. Paralelamente, sob o pretexto de combater a chamada “velha política” acabou-se por, muitas vezes, estimular um sentimento antipolítica.

 

Passados quase 16 meses das últimas eleições e faltando pouco mais de sete meses para as próximas, é possível identificar algumas pequenas mudanças de cenário. Uma delas diz respeito à busca por uma renovação na representação política. Percebe-se certa frustração presente em parcelas do eleitorado com o desempenho, tanto nos executivos quanto nos legislativos, de algumas das candidaturas vitoriosas em 2018 sob a bandeira da renovação. Tal frustação decorre de evidências que demonstram, em muitos casos, a reprodução de velhas práticas em contradição absoluta com as posturas defendidas em suas respectivas campanhas. Isso pode impactar negativamente as candidaturas oriundas desses movimentos, mas por outro lado, tal situação pode ser compensada pela destacada atuação parlamentar de deputados e deputadas federais que ali se formaram. Percebendo essa onda, alguns partidos políticos têm procurado atrair para suas fileiras gente “comum” para disputar as próximas eleições, oferecendo cursos e promovendo seminários com vistas à preparação política dessas pessoas.

 

Nas eleições para as câmaras municipais, estou convencido de que o eleitorado continuará, majoritariamente, votando em nomes de sua preferência ou relacionamento, independentemente de filiação partidária. Porém, o nível de exigência vai aumentar! Não bastará simplesmente dizer “vote em mim porque sou a renovação” ou “vote em mim porque sou preparado”. Quem quiser se eleger precisará criar um grau de empatia com o eleitorado para além da simples menção a bandeiras e propostas. Em tempo de comunicação instantânea, cada vez mais as mensagens curtas e impactantes farão a diferença. Ao lado disso, a percepção por parte do eleitorado que o candidato ou a candidata têm legitimidade para defender as propostas que integram suas plataformas de campanha.

 

É muito positivo ver aumentar o interesse de mais e mais pessoas pela atividade política e sua busca pela melhor qualificação da representação parlamentar. Sem dúvida, estão colocando em prática o verso de Chiquinha Gonzaga que dá título ao artigo.

 

 

*Orlando Thomé Cordeiro é consultor em estratégia