Opinião

Calmaria para tsunamis e carnavais

Correio Braziliense
Correio Braziliense
postado em 24/02/2020 04:14
Vai ter carnaval, ou vai ter coronavírus? Pode beber cerveja? O povo vai chegar armado? É fake news, ou é verdade? E o fogo na Amazônia? E o fogo no mundo? Nosso cotidiano se aproxima disso. Além das preocupações, malabarismos e manobras de alto risco para manter família, trabalho, salário e segurança, acrescentamos ingredientes estressantes, mergulhados nas redes sociais. E nos tornamos ilhas. Pessoas ilhadas, circundadas por informações aflitivas, contra as quais nos sentimos impotentes para provocar mudanças. Num mundo onde as notícias nos invadem, onde os algoritmos das mídias sociais nos enfurnam numa bolha, onde nossa ideia de veracidade e autenticidade vai sendo formatada a partir do amálgama entre %u201Cverdade real e verdade virtual de fatos%u201D, o cuidado de si passa a ser prioridade. De que cuidado estou falando? O título deste artigo começa com Dicas de calmaria. Esse é um tema recorrente em meu consultório de psicologia. Não dou dica alguma. Consultório não é lugar de dica. O que acontece é outra coisa. A partir dos emaranhados real-virtual, amo-odeio, bom-mal trazidos para o consultório, eu estimulo as pessoas a desenvolverem seu kit de cuidado pessoal. Ninguém precisa esperar os dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) para afirmar que vivemos em tempos insalubres e que todo o nosso ser é afetado por isso. A base do trabalho é o que as pessoas sabem sobre si mesmas, seus gatilhos emocionais, ações e reações a partir das notícias. Eu repasso mesmo. Doa a quem doer. Esse povo tem que saber a verdade, costumava dizer José (cujo nome foi mudado), sempre que abordava %u2014 alterado e bufando %u2014 as brigas sociopolíticas e religiosas e sabe lá mais o que no consultório. Um olhar crítico sobre o conteúdo de suas mensagens revelou serem elas uma mistura de verdades, e pós-verdades, mentiras turbinadas a pó de pirlimpimpim e causos da vovozinha, às vezes, em uma única postagem. Quando propus o %u201Ckit%u201D a esse cliente (e ele aceitou), uma de suas primeiras atitudes foi a de imaginar e testar possíveis anteparos no seu gatilho automático de repasse de mensagens. Ao receber postagens que o ativavam emocionalmente, José optou por: parar, respirar, não reagir, conferir o conteúdo em sites de verificação, selecionar parceiros de diálogo, coisas assim. Depois, José resolveu dar uma revisitada em seu sistema de valores, de onde ele tirou a ideia de ser o portador de verdades absolutas. Depois, foi a vez de olhar suas emoções. Por que tanta agressividade quando sua opinião é contrariada? A loucura contemporânea não parou, mas José se retirou tanto quanto pôde da reação em dominó que faz de cada incauto não somente um sofredor, mas um perpetuador de ansiedades, angústias e, muitas vezes sem saber, de mentiras. Eu não me chamo Alice, não quero viver alienada enquanto o mundo se desintegra. No kit de Luiza, couberam outras palavras: engajamento minimalista, porém eficiente. Luiza resolveu investir na diferença qualitativa entre se informar sobre a dor do mundo e sofrer com cada realidade virtual como se ela estivesse na esquina, e procurar conhecer realidades que a motivassem a agir assertivamente. Em seu último relato, ela me contou sobre as peripécias que estavam vivendo %u2014 ela e uma jovem moradora de rua %u2014 para encontrarem um emprego para a recém-chegada do interior. Mesmo não fazendo milagres, Luiza afirma que sua angústia diminuiu, pois seu contato com o mundo e com temas que lhe inspiram o viver ganhou outra razão de ser: Sou útil! E por aí segue minha rotina de consultório, uma lida constante com nossas crenças limitantes e infligidoras de ilusões e angústias, onde %u201Ceu seria muito feliz, se fosse feliz%u201D, que antigamente tudo era melhor, que eu estou certa sobre tudo (que acho) que sei, embora antes de ter tido contato com o artigo, mal sabia de sua existência, enfim: onde a ausência de problemas, atribuídos ao mundo externo, me traria a felicidade. Aí sim, minha vida seria um conto de fadas, quem sabe até um eterno carnaval. O grande desafio é o de criar enredos em que a lida saudável com os visíveis descarrilamentos da sociedade seja a aventura criativa de não buscar fora o que pode se originar dentro. Não existem soluções prontas para problemas que vão surgindo. Soluções vão sendo construídas na relação que estabelecemos entre a situação que surge e a nossa (in)capacidade de lidar com o que surge. E lidaram bem com seus problemas para sempre, é a dica de calmaria!

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