Opinião

Artigo: Brasil inova no tratamento de próstata

Francisco Cesar Carnevale
postado em 24/02/2020 09:54
O Brasil é referência mundial no tratamento dos sintomas da Hipertrofia Prostática Benigna (HPB), um problema que atinge, segundo a Sociedade Brasileira de Urologia, cerca de 14 milhões de homens acima de 45 anos4 mais que toda a população da cidade de São Paulo, a maior do país. O Instituto de Radiologia (InRad) do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina, da Universidade de São Paulo (HCFMUSP), começou a desenvolver uma técnica pioneira com 11 pacientes que sofriam de retenção urinária causada pela doença, em junho de 2008. Trata-se da Embolização Arterial Prostática, mais conhecida como EAP.

Agora, essa inovação na área de urologia está perto de ser ampliada graças ao desenvolvimento, também no InRad, de uma nova ferramenta tecnológica. Foi desenvolvido um software para auxiliar o tratamento de pacientes com HPB por meio da EAP. O procedimento automatizado foi apresentado pela primeira vez à comunidade médica internacional no início de dezembro, durante encontro da Sociedade Radiológica da América do Norte (da RSNA na sigla em inglês), nos EUA.

O novo software é utilizado em caráter preliminar no Hospital das Clínicas desde abril deste ano e mostrou ser capaz de reduzir em até 50% o tempo para intervenções no tratamento de HPB e melhorar os resultados da EAP a longo prazo. O dispositivo ajuda a tornar a cura da doença mais segura e eficaz. O Instituto de Radiologia do HC liderou a pesquisa e o desenvolvimento do software para embolização das artérias da próstata. Em parceria com a General Electric, a ferramenta criada no InRad torna mais ágil a detecção das artérias da próstata nos equipamentos de angiografia fabricados pela empresa. Depois da apresentação da inovação, o software passará a ser incorporado às novas máquinas mundialmente.

O crescimento da próstata é uma condição que deve atingir cerca de 90% dos homens em algum momento da vida. A próstata fica logo abaixo da bexiga, e, quando cresce, comprime a uretra (canal por onde a urina passa). Isso pode acarretar jato fraco, gotejamento persistente, sensação de não esvaziamento da bexiga, urgência urinária e infecção. Nos casos mais graves, o paciente passa a usar uma sonda %u2013 o que piora a qualidade de vida. Até pouco mais de 10 anos, o tratamento costumava ser a cirurgia ou com medicamentos. Entretanto, tanto a cirurgia tradicional quanto os medicamentos podem trazer sérios efeitos colaterais. O tratamento cirúrgico tradicional é a ressecção transuretral (ou %u201Craspagem%u201D) da próstata, procedimento cercado de todos os riscos inerentes às cirurgias invasivas. Além disto, há um período de internação de alguns dias e maior tempo de recuperação.

No entanto, em 2000, um artigo publicado na revista da Sociedade Americana de Radiologia Intervencionista (SIR) sugeriu que era possível tratar a pessoa acometida com HPB por meio da embolização das artérias que irrigam a próstata. O objetivo é tirar a alimentação sanguínea da região onde a HPB se desenvolveu dentro da próstata. Embolizar significa obstruir, no todo ou em parte, a passagem de sangue a uma determinada estrutura do corpo. A embolização é utilizada em diversos territórios do corpo humano sem consequências aos pacientes.

Surgiu, então, a questão: pacientes com HPB também responderiam bem à embolização? Em 2007, o Instituto de Radiologia do HC começou a fazer experimentos na Universidade Harvard. Depois de estudos clínicos, os médicos brasileiros observaram que, nesse tratamento, a próstata diminuiu de tamanho e as dificuldades para urinar acabaram. Desde então, o protocolo tem se destacado como uma das maiores inovações na área da Radiologia.

No estudo inicial, 10 dos 11 pacientes que estavam usando sonda apresentaram redução de cerca de 30-40% do tamanho da próstata e voltaram a urinar espontaneamente sem sonda em 12 dias, em média, após o procedimento. A partir daí, a técnica vive uma história de sucessos, com mais de 400 pacientes tratados. Em 2011, o tratamento passou a ser amplamente oferecido, e médicos de diversos países passaram a vir ao Brasil para serem nele treinados. Desde 2016, o tratamento por meio da EAP foi reconhecido pelo Conselho Federal de Medicina, pela FDA (a agência reguladora de alimentos e remédios dos EUA) e foi aprovado nas guias de recomendação do Instituto Nacional de Saúde e Excelência Clínica do Reino Unido. Estima-se que mais de 5 mil pacientes tenham se beneficiado com a técnica desenvolvida no Brasil.

A embolização fez com que o tratamento da HPB se tornasse uma intervenção minimamente invasiva: é inserido um cateter pela virilha, com anestesia apenas local, num procedimento que dura pouco mais que uma hora, e do qual o paciente tem alta no mesmo dia. O que se observou foi que, além de retomar a qualidade de vida, a autoestima desses homens também foi recuperada rapidamente.

A próstata é uma glândula do corpo à qual todo homem deve prestar atenção crescente conforme a idade avança, e o tratamento de um mal tão comum como a HPB ganhou nos últimos anos duas poderosas ferramentas, reconhecidas no mundo todo, que mostram a excelência da medicina brasileira.

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