Opinião

Visão do Correio: Brasil precisa de união, não de discórdia

Brasil precisa de união, não de discórdia

OBrasil não se pode dar o luxo de desperdiçar mais uma oportunidade para crescer de forma sustentada, criando empregos e ampliando a renda. Condições não faltam para isso. A inflação está em níveis bem baixos, rodando próxima dos 3% ao ano; a taxa básica de juros (Selic), de 4,25% anuais, é a menor da história; e reformas importantes, como a da Previdência, foram aprovadas para conter a deterioração das contas públicas.

Apesar de todas essas conquistas, o país não consegue decolar. Há três anos seguidos, vem crescendo próximo de 1%, praticamente nada para uma nação com tantas desigualdades sociais. A sucessão de frustrações é espantosa. Quando se acredita que, finalmente, o Brasil vai decolar, a realidade se impõe e o avanço na economia fica aquém do necessário. Esperava-se muito que, em 2019, esse quadro terrível fosse, finalmente, superado. Governo novo, esperança renovada.

Infelizmente, o Produto Interno Bruto (PIB) cresceu apenas 1,1% e, pior, as projeções mais otimistas para 2020 começaram a minguar. A não ser alguns técnicos do governo desconectados do Brasil real, ninguém mais acredita em um salto da economia superior a 2%. O consenso já está mais para algo entre 1% e 1,5%. Na atual conjuntura, dizem alguns economistas, é melhor isso do que nada. O desânimo com a economia brasileira aumentou depois da disseminação do novo coronavírus, que começou na China.

O vírus, contudo, pegou o Brasil já em plena desaceleração. Empresários e investidores começaram a levar em suas projeções de negócios o impacto da crise política criada pelo governo. Em vez de estimular um ambiente favorável para os investimentos produtivos, o Palácio do Planalto passou a ser uma fonte de incerteza. O coronavírus só explicitou esse quadro de desconforto.

Com o mundo todo em estado de alerta por causa da Covid-19, a torcida era para que o presidente da República chamasse todos os Poderes para um pacto de união. Mas ele está preferindo estimular a discórdia e a radicalização ao usar as redes sociais para convocar seus apoiadores a saírem às ruas em protesto contra o Congresso e o Judiciário. Esse tipo de comportamento só agrava um quadro de polaridade que maltrata o país há anos.

Seria de muito bom tom que, em vez de pregar o confronto, o ocupante do cargo mais importante do país apresentasse um pacote concreto de medidas para tirar o Brasil do atoleiro e se engajasse efetivamente nas ações de enfrentamento de um vírus que parou a segunda economia do globo e faz estragos mundo afora. A destruição de riquezas em todos os cantos do planeta é assustadora. Por aqui, encostam em R$ 500 bilhões apenas na Bolsa de Valores.

Fábricas estão suspendendo a produção e o setor de turismo contabiliza prejuízos enormes, devido ao cancelamento de viagens. O comércio vê as vendas minguarem. O Banco Central voltou a queimar reservas cambiais para evitar que o dólar chegue aos R$ 5. Nada disso, porém, parece sensibilizar o Palácio do Planalto. A pergunta que todos estão se fazendo é preocupante: ainda dá tempo de salvar o Brasil de mais um fracasso? Mantido o cenário atual, a resposta mais provável é não.