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Correio Braziliense

Artigo: Coronavirus e o imperativo de acreditar na ciência


postado em 24/03/2020 04:04 / atualizado em 24/03/2020 15:20

(foto: Maurenilson/CB/D.A Press)
(foto: Maurenilson/CB/D.A Press)

Por décadas o cinema vem nos expondo a catástrofes, com filmes de enredo apocalíptico e efeitos espetaculares que mostram vulcões, terremotos e maremotos assustadores, asteroides em rota de colisão com a terra, dinossauros revividos que devoram as pessoas, além de muitas tramas que lembram a dura realidade que vivemos agora, com a pandemia do coronavírus. Comuns nos enredos de muitos desses filmes são os cientistas, que, antecipando os perigos, tentam alertar as pessoas e as autoridades — alertas muitas vezes recebidos com desdém e descrédito. Ao fim de muitas tramas, fica claro que, apesar de falível e passível de erros, é a ciência que melhor nos habilita a enfrentar perigos e desastres, sejam quais forem.

Há anos a ciência vem nos alertando que a probabilidade de ocorrência de pandemias cresce perigosamente com a integração global, com o aumento das viagens, o avanço da urbanização, as mudanças no uso da terra e a exploração cada vez mais intensa do ambiente natural — realidades que só tendem a se ampliar e se intensificar. O coronavírus (ou Covid-19) não é o primeiro a passar de animais para humanos. Zoonoses ou doenças infecciosas naturalmente transmitidas entre animais e seres humanos são mais comuns do que a maioria das pessoas imagina, e sua ocorrência e severidade tendem a crescer na medida em que se intensificam as interações entre humanos, animais e o mundo natural. Realidade que demanda atenção continuada, ciência e políticas de prevenção e controle cada vez mais sofisticadas.

A ciência já nos permite tratar as zoonoses como eventos previsíveis, passíveis de monitoramento e estudo sistemático — ao contrário dos imprevisíveis terremotos e furacões que vemos nos filmes de catástrofe. A ciência de sistemas, a modelagem matemática e outras ferramentas analíticas sofisticadas são recursos valiosos para monitorar e antecipar o risco de pandemias e, caso ocorram, para estudar e estimar a trajetória e consequências e definir práticas de mitigação e supressão. E foi exatamente com esse arsenal que uma equipe de pesquisadores do Imperial College, de Londres, realizou o mais completo estudo das consequências da pandemia da Covid-19, com resultados muito preocupantes, que estão tendo grande impacto nas decisões que autoridades britânicas e americanas estão tomando.

O estudo foi liderado pelo pesquisador Neil Ferguson, que, após a divulgação dos resultados, adoeceu com sintomas de coronavírus. Com base em experiências e dados sobre a doença na China, na Coreia do Sul e na Itália, a equipe modelou expectativas de transmissão do vírus pela população do Reino Unido e dos EUA, a pressão que será exercida sobre os sistemas de saúde e a eficácia das medidas em implementação. Apesar de tais simulações serem sustentadas em premissas e suposições, e marcadas por incertezas sobre a natureza e a dinâmica da Covid-19, elas ainda são a melhor alternativa para antecipação de futuros possíveis para a pandemia. E as conclusões do estudo apontam para situações extremamente preocupantes se não pudermos contar, com rapidez, com tratamentos comprovados ou uma vacina eficaz contra o vírus.

Os pesquisadores modelaram os impactos de uma epidemia não controlada, concluindo que oito em cada 10 pessoas seriam infectadas, com 510 mil mortes no Reino Unido e 2,2 milhões nos EUA. Em seguida, avaliam o impacto de medidas em implementação ou planejadas, como isolamento domiciliar de pessoas infectadas, quarentena doméstica para todos os membros da família de pessoas infectadas, distanciamento social para todas as idades, com reforço para os que têm mais de 70 anos. Segundo o estudo, a abordagem reduziria as mortes pela metade e a demanda por serviços de saúde em dois terços. Ainda assim, os EUA teriam mais de 1 milhão de mortes, com a capacidade dos hospitais excedida em pelo menos oito vezes. As extrapolações para regiões e países menos preparados são extremamente preocupantes.

Também muito preocupante é a conclusão de que, com o conhecimento que temos, não se pode permitir que o vírus se espalhe por toda a população, como nas gripes comuns, pois a Covid-19 é mortal demais. O estudo aponta como mais prudente a implementação de práticas radicais de supressão do vírus, com isolamento, quarentena e reforço do distanciamento social para toda a população por um período muito mais longo que o até agora imaginado. Para relaxamento das práticas de supressão, deveria surgir um tratamento eficaz ou a possibilidade de vacinação em massa, o que os pesquisadores estimam levar cerca de 18 meses. Um tempo longo de severo isolamento, com profundas consequências para a sociedade.

Frente a um quadro tão sério, a postura dos nossos líderes e tomadores de decisão é decisiva. É relativamente fácil mobilizar as pessoas para sacrifício comum em meio a uma guerra, que afronta os nossos sentidos de todas as formas. É difícil fazer o mesmo numa pandemia, com um inimigo invisível que não elicita da mesma forma e intensidade os nossos sentidos. Como a vida de um número enorme de pessoas está em jogo, se tivermos que errar, é infinitamente melhor que erremos por excesso de zelo e cuidado, mesmo que as perdas físicas e econômicas pareçam impossíveis de absorver. Essas não se comparam às vidas humanas que poderão ser ceifadas pela pandemia.

Neste grave momento, os cientistas precisam ser ouvidos. Apesar de imperfeita e falível, é a ciência que pode fortalecer a nossa capacidade de reação, incluindo o cuidado com os que estão na linha de frente. Esse é o momento de reforçarmos os sistemas de proteção e redobrarmos o apoio aos profissionais de saúde, que enfrentarão dificuldades de toda ordem para proteção da maioria e do futuro da sociedade.
 
 
*Maurício Antônio Lopes é pesquisador da Embrapa 
 

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