Opinião

Covid 19: o dia seguinte

''O Covid-19 é altamente infectante. Rapidamente se espalha em uma população. Basta citarmos nosso país, que pulou em 30 dias de um para 4 mil casos. Tem uma taxa de letalidade baixa, mas, se considerarmos em número absoluto, o número de óbitos diários é altamente significativo.''

Nelson Hamerschlak*
postado em 31/03/2020 04:04
''O Covid-19 é altamente infectante. Rapidamente se espalha em uma população. Basta citarmos nosso país, que pulou em 30 dias de um para 4 mil casos. Tem uma taxa de letalidade baixa, mas, se considerarmos em número absoluto, o número de óbitos diários é altamente significativo.''Estamos passando por uma pandemia grave. Creio que nem em ficção científica dos livros do Robin Cook, médico e escritor, imaginaríamos a situação que vivemos hoje. Somente Bill Gates, há quatro anos, previu que, mais que uma terceira guerra mundial, um vírus que se transmitisse por saliva e fosse grave poderia gerar comoção como esta. Não é à toa que o presidente da Organização Mundial da Saúde (OMS) e o papa Francisco pediram que o mundo esquecesse as diferenças e interrompesse toda e qualquer ação bélica. Hoje temos um inimigo comum.

O Covid-19 é altamente infectante. Rapidamente se espalha em uma população. Basta citarmos nosso país, que pulou em 30 dias de um para 4 mil casos. Tem uma taxa de letalidade baixa, mas, se considerarmos em número absoluto, o número de óbitos diários é altamente significativo. Apesar de a vida estar de cabeça para baixo, temos que observar os cuidados de isolamento social, limpeza de superfícies, não cumprimentar os amigos com as mãos, abraços e beijos e lavar as mãos ou usar álcool em gel. Sei que este assunto está mais que debatido em todas as mídias, mas nunca é demais reafirmar. Isso é muito importante no momento atual.

Outras orientações vão surgir com o passar do tempo. Seguramente, quando testes em massa estiverem disponíveis tanto para o vírus como para seus anticorpos, cada vez mais pessoas, doentes ou não, profissionais da saúde ou não, serão testadas e novas determinações vão surgir. Na minha prática diária, estamos constantemente mudando, ampliando leitos, testando pacientes e usando medicamentos experimentais em pesquisas clínicas nos pacientes graves e nos que necessitam de cuidados intensivos. A Conep e a Anvisa, sensíveis ao momento, têm aprovado rapidamente as iniciativas científicas.

Sou hematologista e estou no olho do furacão diariamente. Meus pacientes, na maioria, são grupos de risco por doenças oncológicas, transplantes de medula óssea e uso de imunossupressores. Temos procurado adaptar os tratamentos a cada situação, cancelando as terapias que podem esperar e tomando todos os cuidados para os que não podem adiar. Eu mesmo sou grupo de risco pela idade, mas, neste momento, faço questão de estar ao lado dos que sempre tratei e em mim confiam. Lógico, tomando todos os cuidados disponíveis.

Por seu lado, creio que algumas melhorias vieram para ficar. Muitos pacientes antigos e novos que não dependem de exame físico têm se beneficiado de consultas por telemedicina. Reuniões científicas realizadas a distância com aplicativos funcionam muito bem. Enfim, notamos que sobra tempo dessa forma para que tenhamos vida mais normal, com mais qualidade de tempo. Seria ótimo que isso permanecesse assim.

Tratamentos devem ser utilizados dentro de protocolos científicos. Temos visto que o Ministério da Saúde, a Conep e a Anvisa estão sensibilizados para agilizar aprovações. Temos que sair desta. Não temos prazos. Os mais otimistas falam em julho / agosto. A união de todos é fundamental.

Mais importante ainda são as lições que precisamos tirar de tudo isso. Tenho certeza e realmente espero que todos saiamos desta melhores, unidos, com novos valores, esquecendo pequenas diferenças, com muito amor e ajuda ao próximo e sempre com objetivos nobres em busca de um futuro melhor para nossos netos. Somente dessa forma o período que passamos será ultrapassado, mas nunca esquecido.

* Professor livre pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, é coordenador do Programa de Hematologia e Transplantes de Medula Óssea do Hospital Israelita Albert Einstein e presidente da Sociedade Brasileira de Transplantes de Medulka Óssea (SBTMO)

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