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Correio Braziliense

Artigo: Precisamos da sociedade para salvar os indivíduos

''A voz de vozes comparece como uma racionalidade coletiva e profere a sabedoria de uma cognição cultural que identifica que uma crise social dessas proporções só pode ser combatida por uma ação social de igual tamanho e contundência''


postado em 06/04/2020 07:53

(foto: Maurenilson Freire/CB/D.A Press)
(foto: Maurenilson Freire/CB/D.A Press)
Não lembro de nada parecido na história recente da humanidade. Talvez tivéssemos que nos remontar aos grandes conflitos bélicos do século 20, mas presumo que, mesmo neles, a procura por homólogo à altura seria esforço em vão. Uma expressão, um ato de fala diretivo circunda o mundo: é ouvido em ruas e praças, gritado de janelas e sacadas em centenas de cidades e em todos os idiomas, é repetido sem descanso por autoridades e apresentadores de telejornais, se espalha pelas redes, formando hashtags, tweets ou stories. Não existe meio, nem canal, nem forma de comunicação que não esteja tomado pela sua presença, como conselho de amigo, recomendação de cientista ou com a força do imperativo legal de ofícios e decretos. Fique em casa!

Uma multidão de vozes que confluem em uma voz só, em um uníssono que intui e tenta se prevenir da tragédia que decorreria de dissonâncias ou polifonias que viessem a perturbar a clareza da mensagem. Mas a quem se dirige essa voz de vozes, essa mensagem de todos? Quem é o destinatário do conselho, da recomendação ou da ordem “fique em casa!”? E o que significa, a rigor, a expressão? É fundamental que reflitamos sobre as duas questões. É imprescindível irmos além do óbvio, da interpretação fácil. É vital, no sentido mais essencial do termo.

Ir além do óbvio significa, primeiro, reconhecer que o destinatário de “fique em casa!” não sou eu, nem você, nem ela, nem ele, individualmente. A expressão se dirige a nós todos ao mesmo tempo, a nós como coletivo, como sociedade. O conselho, a recomendação e a ordem transcendem o plano individual. Não é de mim para você. Nem sequer do indivíduo médico para o indivíduo paciente. É de todos nós para todos nós. A voz de vozes comparece como uma racionalidade coletiva e profere a sabedoria de uma cognição cultural que identifica que uma crise social dessas proporções só pode ser combatida por uma ação social de igual tamanho e contundência. E, em última instância, como apelo final, exige que entendamos que qualquer um de nós, como indivíduos, só vai ter uma chance real de superar a crise se agirmos como coletivo.

A voz coletiva exige ação coletiva. Antecipo, assim, a resposta à segunda pergunta. Mas, de novo, além do óbvio, o que significa a ação coletiva? Significa, no âmbito mais cotidiano, que ficar em casa e só sair quando realmente necessário, lavar as mãos com frequência e passar álcool em gel, manter metros de distância entre pessoas, liberar de trabalho presencial sempre que possível deve adquirir status de convenções sociais e, portanto, também de expectativas, de comportamentos socialmente esperados: eu sei que você sabe que eu sei que eu lavei as mãos e passei álcool em gel, da mesma forma que eu posso esperar, por estar socialmente estabelecido, que, ao estacionar o seu carro, você vai tentar não bater no meu.

Para além do domínio imediato da nossa cotidianidade, agir coletivamente implica decisões políticas coordenadas e fundamentadas na racionalidade do conhecimento, especialmente do conhecimento científico. Precisamos sustentar as nossas decisões na realidade dos fatos, do cientificamente comprovado. Qualquer outra escolha seria (e é) irresponsabilidade. No âmbito específico da produção científica, a voz coletiva nos pede para intensificar as nossas práticas já habituais: trabalharmos em rede, colaborarmos uns com os outros, colocarmos os dados e as descobertas produzidas no nosso laboratório à disposição dos colegas de outros laboratórios no país ou do exterior.

A ciência sempre foi ação coletiva. Agora precisamos da coletividade mais do que nunca. Mesmo que depois, por imperativos da lógica mediática, a ciência seja individualizada, dando destaque a um pesquisador ou a um laboratório concreto, quem pratica ciência sabe que não existem salvadores da pátria e que só unindo os conhecimentos teremos uma chance. Precisamos da sociedade para salvar os indivíduos. Precisamos da coletividade, do público, da ciência e da saúde públicas, trabalhando em prol da sociedade. Precisamos da consciência de todos. Só assim superaremos esta crise e outras que virão.

Fiquem em casa!

*Vice-reitor da Universidade de Brasília (UnB)

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