Opinião

A nação como resposta?

''Em que pese a dramaticidade dos números, é preciso reconhecer que a pandemia apenas agravou a crise econômica, não a originou''

Armando Castelar*
postado em 24/06/2020 04:06
Há algum tempo me pergunto sobre como faremos para sair da crise. Falo em crise, no singular, mas na verdade são muitas crises. Há a da saúde, a da política, a da falta de saneamento básico e, claro, a econômica: segundo os analistas de mercado, este ano o PIB vai contrair 6,5%, milhões de trabalhadores ficarão sem emprego e as contas públicas arriscam entrar em trajetória explosiva.

Em que pese a dramaticidade dos números, é preciso reconhecer que a pandemia apenas agravou a crise econômica, não a originou. Ela vem de antes. De 1981 a 2020, nosso PIB per capita terá crescido apenas 0,5% ao ano. Isso é uma fração do crescimento médio das economias emergentes e dos países avançados, de 1,6% e 2,8%, respectivamente. Em 2011-19, antes da pandemia, portanto, nosso PIB per capita já tinha caído, em média, 0,13% ao ano.

Há décadas, o Brasil faz reformas, fiscais e microeconômicas, sem nunca resolver os problemas, seja a precariedade das contas públicas, seja a má qualidade do ambiente de negócios. Não quero com isso negar que tenha havido avanços. Houve, e muitos: sem pretender ser exaustivo, vale citar a redemocratização, com a ampliação do direito ao voto; o controle da inflação; a melhora significativa de indicadores sociais nas áreas de saúde e educação; avanços na questão distributiva e na redução da pobreza; melhoras no ambiente de negócios, com privatizações, abertura comercial, reforma trabalhista; e medidas fiscais importantes, como o teto de gastos e as reformas da Previdência.

Por que não conseguimos construir em cima dessas reformas para colocar o Brasil em uma trajetória de crescimento rápido e estável? Essa pergunta acabou me levando ao tema da ;nação;. Esta, como define o Houaiss, é uma ;comunidade humana, fixada em sua maioria num mesmo território, e que possui unidade histórica, linguística, religiosa, econômica, mais ou menos forte;. Esse, sem dúvida, é o caso da nação brasileira. O que vejo, porém, é que a nação é pouco valorizada entre nós. Mudar essa atitude na direção certa pode ser o caminho para construirmos uma saída a fim de evitar o desastre que nos aguarda se persistirmos desunidos e sem cuidar dos desafios que ora se colocam.

No excelente O pecado original da República; (Bazar do Tempo, 2017), o historiador José Murilo de Carvalho faz várias considerações sobre nossa dificuldade de desenvolver um sentimento mais forte de nação, ;de nossa dificuldade em definir algum tipo de identidade coletiva para o país;. Ele atribui isso à desigualdade social, refletida por muito tempo na baixa participação social no processo político-eleitoral. Reforça esse ponto citando José Bonifácio, que, em 1833, observava ;que o principal obstáculo à construção de uma nação brasileira era a existência da escravidão;.

A escravidão acabou há mais de 132 anos, mas a baixa integração entre diferentes segmentos da população brasileira segue existindo. Assim, na visão de José Murilo, ;hoje, o equivalente da escravidão, o câncer que corrói as entranhas do corpo social brasileiro, o maior obstáculo à formação de uma nação, continua sendo a desigualdade social;.

Assim, na sua visão, ;[s]em comunidade, vivências, sentimentos e propósitos comuns, a identidade nacional passou a ser imaginada por intelectuais, aí incluídos historiadores, com muito esquecimento, muito erro e muita fuga, (;) Houve muito esquecimento no mito de uma história pacífica, houve erro na ideia de democracia racial, houve fuga na exaltação da natureza como principal motivo de orgulho nacional;.

Me pergunto, porém, se a desigualdade é a única explicação. Há uns dias, por exemplo, ouvi o interessante argumento de que a Constituição de 1988 teria enfraquecido entre nós o sentido da nação ao enfatizar os direitos individuais e fortalecer o papel das corporações em detrimento da busca do interesse coletivo.

Também me parece que, entre o período Vargas e meados dos anos 1970, o Brasil conseguiu fortalecer o sentimento de comunidade, de identidade coletiva, em torno da ênfase de uma proposta de desenvolvimento nacional calcado na industrialização, no petróleo é nosso etc.

Como bem colocou o também historiador Simon Schama, ;[u]ma coisa que a interrupção trazida pela pandemia provocou é um confronto com grandes questões históricas: quem somos como nação, o que fomos e para onde estamos indo;? (https://on.ft.com/3hnt41m). Acho que um debate assim precisa ocorrer no Brasil. Precisamos fortalecer a nação brasileira.


* Coordenador de economia aplicada do IBRA/FGV e professor do IE/UFRJ

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