Opinião

Igualdade de gênero e transição energética

Universalizar o acesso à energia é essencial para que mulheres tenham oportunidades iguais na economia de energia limpa, principalmente as pequenas empresas no setor informal, que correm risco de não se recuperarem após a crise.

Irene Giner-Reichl
postado em 11/07/2020 04:14
 (foto: Fernando Lopes/CB/D.A Press)
(foto: Fernando Lopes/CB/D.A Press)
Universalizar o acesso à energia é essencial para que mulheres tenham oportunidades iguais na economia de energia limpa, principalmente as pequenas empresas no setor informal, que correm risco de não se recuperarem após a crise.Mulheres estão na linha de frente da pandemia e da revitalização. Precisam de energia moderna e acessível para continuar apoiando suas comunidades. À medida que governos elaboram planos de recuperação econômica sustentáveis, observamos quatro medidas com grande potencial de reduzir desigualdades e promover o empoderamento feminino no setor energético.

No Brasil, praticamente 100% da população têm acesso à eletricidade. Mas, globalmente, 800 milhões de pessoas vivem sem acesso à energia elétrica e 2,8 bilhões de pessoas não têm oportunidade de cozinhar com energia limpa. Universalizar o acesso à energia é essencial para que mulheres tenham oportunidades iguais na economia de energia limpa, principalmente as pequenas empresas no setor informal, que correm risco de não se recuperarem após a crise.

O isolamento social é oportunidade para mitigar vulnerabilidades de gênero. A transição energética ajuda a desenvolver capacidades e cadeias de valor locais. Atualmente, mulheres representam apenas um terço da força de trabalho no setor de energia sustentável. É importante promover a participação feminina, pois a igualdade e a diversidade de gênero resultam em melhores resultados econômicos, desenvolvimento social e ecologia.

O setor energético pode contribuir ao fornecer insumos a clínicas de saúde com poucos recursos, que precisam de eletricidade para prestar serviços vitais, principalmente durante a pandemia. Superar a ;divisão digital; ajuda vítimas de violência de gênero a se protegerem enquanto estiverem isoladas.

Melhorar o acesso à energia é vital para apoiar mulheres nos cuidados à saúde, pois higiene e saneamento são indispensáveis. Antes da pandemia, elas trabalhavam três vezes mais do que os homens domesticamente e no cuidado à saúde não remunerado, e representam grande parcela dos trabalhadores na linha de frente do corona. A nova importância do lar como centro de trabalho, educação e lazer aumentou os encargos femininos, que podem ser aliviados pelo fornecimento adequado de energia e ferramentas econômicas como o financiamento flexível e subsídios pontuais.

Tecnologias e combustíveis limpos de cozinha são essenciais, também, para mitigar a poluição do ar, que causa doenças respiratórias e agrava os sintomas da covid-19. A meta energética para cozinhar com energias limpas do ODS7 está ficando para trás, o progresso não acompanha nem o crescimento da população. Os encargos econômicos podem causar o retorno da lenha para cozinhar apesar de a poluição do ar domiciliar já causar mais de 4 milhões de mortes prematuras a cada ano. Portanto, é ainda mais imperativo que os governos façam da culinária acessível com energia limpa parte dos planos de resposta a emergências, principalmente na pandemia.

Globalmente, a meta energética do ODS7 está defasada, porém, os governos têm oportunidade de tornar o acesso universal à energia limpa e acessível parte dos planos. Mulheres devem participar na transição energética e na recuperação econômica pós-covid-19. Pesquisas de gênero e dados desagregados por sexo são essenciais para o planejamento e o acesso equitativo à energia sustentável, garantindo o direito ao desenvolvimento.

O mundo está rapidamente reimaginando novas realidades, incluindo futuros energéticos. Não devemos perder o momento de dar novo impulso, não apenas em direção à transição energética sustentável, mas, também, à participação das mulheres no setor.

(Versão abreviada de artigo em coautoria de mulheres líderes no setor: cf.www.globalwomennet.org)

*Embaixadora da Áustria

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