Opinião

A nossa velha infância

Ana Dubeux
postado em 19/07/2020 10:33
Tenho pescado aqui e ali palavras, frases, refrões de música que mandam recados ao meu coração. Numa época de recordes tão tristes, com o Brasil beirando 80 mil mortes, as canções têm sido sopros de esperança, assim como as vozes dos amigos que mandam lembranças e falam de saudades. Sinto que a arte e o humor são as únicas zonas de conforto. Salve os artistas, os palhaços e os amigos!

No título deste artigo, veio a canção dos Tribalistas. Nela tem uma frase linda. Diz assim: ;Meu riso é tão feliz contigo...;. De imediato, ela me remete ao antigo normal, que na verdade é a vida que sempre existiu e está demorando demais a voltar. Lembro das boas risadas na redação, aquele ambiente agitado e nervoso; dos abraços na minha netinha; de sentar com amigos num café gostoso e falar com despreocupação e despretensão sobre as coisas da vida.

Em algum momento, eu sabia, a nostalgia havia de se abancar aqui do meu lado. Até que demorou. O novo normal é bem chato de se viver, para falar a verdade. E talvez minha capacidade de ser resiliente esteja dando lá seus sinais de desgaste. Quer um exemplo? Minhas amigas mais chegadas, mesmo sendo jornalistas, nunca entenderam meu apreço pelos plantões de fim de semana. Esses dias postei uma foto de plantão no Instagram e, olhando para ela, pensei: ;Que tempo bom!”.

A gente não tinha tempo para nada, quase dormia no jornal, dizia que redação era uma máquina de moer gente. Vivíamos cansados e... felizes! O tempo não é apenas o senhor da razão. O tempo é a janela que nos permite ser feliz com nossas experiências de vida. É ele que nos dá o distanciamento necessário para olhar, compreender e honrar nossa trajetória. O presente, vivemos; o futuro, esperamos. No passado, estão guardadas memórias que se tornam lindas e poderosas, independentemente das dificuldades.

O velho normal não vai voltar exatamente como era, e é bom que seja assim. Este normal imposto de agora também não vai durar para sempre. O que sempre teremos é a vida vivida, a lembrança dos tempos passados com suas coisas boas e ruins, um futuro melhor a construir e a passagem do tempo. Hoje eu quero brincar na minha velha infância e lembrar dos meus plantões divertidos e intensos. Visite suas memórias hoje e dê muita risada! Bom domingo!

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