Opinião

Pregadores da violência

''No Brasil são culturais os abusos físicos e psicológicos contra crianças e adolescentes para 'discipliná-los'. Pais ou responsáveis são vistos como detentores do 'direito' de aplicar castigos e humilhações para 'corrigir'. É a maldade naturalizada''

Cida Barbosa
postado em 20/07/2020 04:18
O Brasil está a anos-luz de ser um país que combate efetivamente a violência contra crianças e adolescentes. Esse fato desolador inclui, claro, o processo de cuidado e educação deles. O governo não toma nenhuma iniciativa incisiva pelo direito de meninas e meninos de serem ensinados sem agressões físicas ou psicológicas. Na sociedade, somente algumas abnegadas entidades estão empenhadas na defesa deles.

E por que a indiferença generalizada? Porque no Brasil são culturais os abusos físicos e psicológicos contra crianças e adolescentes para ;discipliná-los;. Pais ou responsáveis são vistos como detentores do ;direito; de aplicar castigos e humilhações para ;corrigir;. É a maldade naturalizada.

Por causa dessa mentalidade cruel, covarde e arraigada, pessoas que têm condições de usar sua influência para combater o mal fazem é apologia à violência, como líderes religiosos. Caso do novo ministro da Educação, Milton Ribeiro. Em vídeo de 2016, intitulado ;A vara da disciplina;, o pastor de igreja evangélica defende o uso de castigos físicos para educar crianças. ;A correção é necessária pela cura. Não vai ser obtida por meios justos e métodos suaves. Deve haver rigor, severidade. E vou dar um passo a mais, talvez, algumas mães até fiquem com raiva de mim: deve sentir dor;. É repulsivo, para dizer o mínimo.

Há uns dois anos, um padre, também em vídeo, deu declarações igualmente revoltantes. Disse ele: ;Quando você bate no filho, ele ameaça chamar a polícia, o Conselho Tutelar, porque a escola ensina isso. Aí você fala: ;Chama mesmo, mas você vai apanhar antes e depois;;, ensinou, diante de grande plateia. ;Quando a polícia chegar, você diz: ;Se quiser educar, leva, que é teu. Se não quiser, dentro da minha casa não dê palpite. Estou educando;;. Ele recebeu aplausos entusiasmados. Lastimável.

Aviso ao novo ministro da Educação e a esse padre, pregadores da violência contra indefesos: desde 2014 está em vigor a Lei Menino Bernardo, estabelecendo o direito da criança e do adolescente de serem educados e cuidados sem o uso de castigos físicos ou de tratamento cruel ou degradante. Só a necessidade dessa lei já mostra como a sociedade é sádica com os mais vulneráveis.

A Rede Não Bata, Eduque ; cuja missão é desnaturalizar a prática maléfica ; lembra que, em 2019, o Disque Direitos Humanos (Disque 100) recebeu mais de 86 mil denúncias de violência contra crianças e adolescentes. Os abusos físicos corresponderam a 38% (33.374) das ocorrências. Setenta e sete por cento das agressões foram cometidas por pessoas que deveriam protegê-los: 40% pela mãe, 18% pelo pai, 6% pelo padastro, 5% pelos avós e 8%, outros familiares. A casa da vítima apareceu em 52% dos casos como sendo o local onde a brutalidade ocorreu. São números devastadores.

Em nota sobre as declarações de Milton Ribeiro, a entidade diz: ;Instamos o novo ministro da Educação, como representante do Estado, a se posicionar publicamente em favor de uma educação sem violência;. Ele poderia começar liderando campanhas maciças para divulgar a Lei Menino Bernardo, o que nenhum órgão do governo faz. Os dados do Disque 100 mostram a urgência de sensibilizar a população para educar com diálogo, respeito e, principalmente, afeto.

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