Opinião

A babel amazônica

''A Amazônia é tudo isso. Índios, grandes projetos, interesses econômicos estrangeiros, garimpeiros, problemas fundiários incrivelmente complexos, igrejas, missionários suspeitos, índios malandros que fazem contrabando de minérios de alto valor''

André Gustavo Stumpf*
postado em 21/07/2020 04:06
''A Amazônia é tudo isso. Índios, grandes projetos, interesses econômicos estrangeiros, garimpeiros, problemas fundiários incrivelmente complexos, igrejas, missionários suspeitos, índios malandros que fazem contrabando de minérios de alto valor''O marechal Cândido Mariano da Silva Rondon é herói brasileiro. Ele desbravou as terras do Centro-Oeste, colocou linhas telegráficas no trajeto hoje ocupado pela BR-364, participou com o ex-presidente norte-americano Teddy Roosevelt da expedição ao rio da Dúvida, que saiu de Cáceres e desceu o rio andando por 1.600 quilômetros, em 1914, até o encontro com o Madeira. Ele, filho de índios, encontrou várias tribos pelo caminho e marcou a atividade com um propósito inabalável. Morrer se for preciso, matar nunca. Criou a primeira reserva indígena brasileira, na região do Xingu, para onde imaginou levar representantes de várias tribos.

Rondon detestava os padres salesianos. Entendia que, em nome da religião, eles se apropriavam da terra deles e os alfabetizavam no idioma italiano. Tradicionalmente, missões católicas, comandadas por estrangeiros, estão espalhadas pela floresta. Em tempos recentes, várias missões evangélicas ligadas a missionários de diversos países passaram a atuar na região. Desde o início da colonização, os jesuítas defenderam os índios no território que julgavam ser seu. Ou seja, todo o país.

Há alguns anos, viajei em avião da FAB até a aldeia dos índios tiriós, na fronteira com a Guiana Holandesa, agora República do Suriname. Encontrei lá um padre alemão, que se comunicava com os índios no idioma de Goethe. Amazônia significa uma confusão proporcional ao seu tamanho. A chamada Amazônia Legal possui 5. 217. 423 quilômetros quadrados, ou cerca de 61% do território brasileiro. Sua população corresponde a 14% do total de habitantes do Brasil. Cerca de 1 milhão de indígenas vivem na região em reservas ou distantes de contato com o homem branco.

Apesar do fracasso da Fordlândia, nas margens do Rio Tapajós, a Amazônia tem recebido grandes projetos. Um deles foi realizado em Serra do Navio, Amapá, ainda nos anos 50, depois da descoberta no local de grande reserva de manganês. O processo foi semelhante ao desenvolvido pelos gerentes da Ford. A empresa norte-americana criou uma cidade, dentro dos melhores conceitos de urbanismo. Associada à brasileira Icomi, construiu ferrovia e o porto de Santana, no delta do Rio Amazonas. A cantora Fernanda Takai é um dos nomes ilustres nascidos no local. Mas o manganês acabou, as empresas saíram e os equipamentos estão abandonados ao relento.

O projeto Jari, na divisa dos estados do Pará e do Amapá, voltado para a produção de celulose, foi idealizado pelo bilionário norte-americano Daniel Ludwig em 1967. Ele mandou construir uma fábrica de celulose no Japão, na cidade de Kobe, usando tecnologia finlandesa para produzir duas plataformas flutuantes. Uma para a produção de celulose e outra para gerar energia. Elas foram rebocadas do Japão num percurso de 25 mil quilômetros, que durou 53 dias para ser concluído.

O projeto ocupa uma área de 16 mil km;, envolveu a construção de uma cidade para a moradia dos trabalhadores, além de hospital e escolas na sede, chamada Monte Dourado. A fábrica e os implementos custaram em torno de US$ 200 milhões, cotação dos anos 80. No ano 2000, ano de sua venda para o grupo Orsa, a população do Jari alcançou 30 mil habitantes. O projeto tornou-se economicamente viável e sustentável.

A Serra dos Carajás é uma enorme cordilheira no sudeste do Pará. Na área, desenvolve-se o projeto Grande Carajás, ambicioso empreendimento de extração mineral, conduzido pela Companhia Vale do Rio Doce, hoje somente Vale. O território era povoado pelos povos karajá e kayapó. O depósito de ferro na Serra dos Carajás contém 18 bilhões de toneladas. O maior do mundo. Também há grande reservas de manganês, zinco, níquel, cobre, ouro, prata, bauxita, cromo, estanho, tungstênio e urânio. A Ferrovia Carajás, com 892 quilômetros de extensão, transporta em duas linhas, composições de 330 vagões e três locomotivas cada uma, mais de 230 milhões de toneladas/ano para o porto de Itaqui, no Maranhão, de onde são exportadas para o mundo. Principalmente, para a China.

A Amazônia é tudo isso. Índios, grandes projetos, interesses econômicos estrangeiros, garimpeiros, problemas fundiários incrivelmente complexos, igrejas, missionários suspeitos, índios malandros que fazem contrabando de minérios de alto valor. A expansão dos pastos e as consequentes queimadas. Ao fundo, a vigilância de instituições ambientais, algumas esquisitas. Pilotar tudo isso e negociar a manutenção da floresta em pé é a simples tarefa entregue ao vice-presidente, general Hamilton Mourão.


*Jornalista

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