Opinião

Opinião: Nada de extremos

''O extremismo político dissemina-se pela Europa como um tumor metastático. Alimentado pela xenofobia, pelo nacionalismo e pelo sentimento anti-imigração, ganha terreno no poder e suas vozes ecoam nas ruas''

Rodrigo Craveiro
postado em 22/07/2020 04:18
Há exatamente nove anos, o extremista de direita Anders Behring Breivik aterrorizava o mundo com um duplo atentado na Noruega. A explosão de um carro-bomba, em frente ao gabinete do primeiro-ministro, em Oslo, matou oito pessoas e feriu 209. Pouco depois, a 40km da capital norueguesa, Breivik prosseguiu com o massacre e executou a tiros 69 jovens que participavam, na ilha de Utoya, de um acampamento de verão da Liga Juvenil de Trabalhadores, uma organização política afiliada ao Partido Trabalhista Norueguês.

Os ataques, que ceifaram 77 vidas em uma das nações mais pacíficas e prósperas do mundo, expuseram a face mais cruel e torpe do fanatismo político. Ninguém está a salvo da radicalização de indivíduos, seduzidos por ideologias nefastas, amorfas, segregacionistas ou apenas ultraconservadoras.

O extremismo político dissemina-se pela Europa como um tumor metastático. Alimentado pela xenofobia, pelo nacionalismo e pelo sentimento anti-imigração, ganha terreno no poder e suas vozes ecoam nas ruas. Na Alemanha, o partido Alternativa para a Alemanha (AfD, em alemão), com sete anos de existência, encontrou guarida no seio do euroceticismo e ampliou a verve ideológica em direção à repulsa aos refugiados e aos muçulmanos. Em 2017, ganhou representatividade no Bundestag, o Parlamento alemão.

Na França, a Frente Nacional, de Marine Le Pen, rebatizada como Reagrupamento Nacional, perdeu as eleições municipais de março, mas se manteve como importante força política de um país cujas diretrizes são a liberdade, a igualdade e a fraternidade.

Os poloneses, por sua vez, avalizaram a distópica agenda homofóbica do presidente Andrzej Duda, reeleito em 12 de julho passado. Na Hungria, o Fidesz, com Viktor Orbán, ganhou o poder em 1998 para um mandato de quatro anos e retomou o controle do país em 2010.

Quase oito décadas depois da derrocada do nazismo e do suicídio de Adolf Hitler, causa espanto que o Velho Mundo não tenha assimilado as lições de tempos tão trevosos e as dores vergonhosas do holocausto. Qualquer país civilizado não deveria abrir espaço para ideias desconectadas com o mundo moderno, dinâmico e plural. A aceitação do próximo é base para uma sociedade igualitária, justa e fraterna, avessa ao negacionismo e à perseguição étnica, religiosa e sexual.

Há exatamente nove anos, o radicalismo de Breivik selou o trágico destino de 77 seres humanos. É preciso que o mundo reflita sobre a exaltação cega e irresponsável a líderes políticos e suas filosofias absurdas. Antes que mergulhemos no obscurantismo e que novas tragédias ocorram.



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