Opinião

Quer liderar? Seja honesto

''A honestidade é um valor derivado da honra e estreitamente relacionado com a verdade'' - Manual de Liderança Militar

Joarez Alves Pereira Júnior*
postado em 31/07/2020 04:05
A resposta à pergunta do título é o que aponta pesquisa realizada com quatro diferentes grupos, dois de civis e dois de militares. A figura do líder é primordial no campo militar. A guerra é atividade coletiva, não se combate sozinho, mas integrando um grupo, um pelotão, um batalhão.

E, no campo de batalha, um bom chefe, gerente ou administrador não basta, é preciso um líder capaz de conduzir e guiar as ações. Daí a necessidade de as escolas militares formarem líderes, não apenas bons chefes.

A importância do líder, no entanto, extrapola a atividade militar. Warren Bennis afirmou que um cientista da Universidade de Michigan, ao listar as três principais ameaças para a sociedade americana, apontou, dentre elas, a qualidade da liderança das instituições que pudessem levar à destruição da sociedade.

Reconhecidamente, a figura do líder é fundamental na condução das empresas, dos negócios e, particularmente, para os dirigentes políticos e chefes de instituições responsáveis, em nome do povo, pela condução dos desígnios de uma nação.

Ao persistir no estudo do tema liderança, ao qual fui exposto durante meus 44 anos de serviço ativo, realizei a pesquisa mencionada com dois grupos de militares do Exército, oficiais e praças, e dois grupos de civis, empresários e acadêmicos. Para tanto, foram definidos 38 atributos/valores/atitudes (AVA) a fim de ser julgado o grau de importância para o líder. Os pesquisados deveriam opinar se cada um deles era imprescindível, importante, desejável ou dispensável.

Vários aspectos interessantes foram revelados durante a análise dos resultados. O primeiro deles destaco neste artigo: dos 10 atributos mais votados como imprescindíveis por grupo, só três apareceram nas quatro listagens, quais sejam, honestidade, responsabilidade e integridade. Mais significativo ainda é que, em três dos quatro grupos, o AVA considerado como o mais imprescindível foi a honestidade.

A honestidade é o valor de quem apresenta probidade, honradez, que não se deixa corromper. Por sua vez, a responsabilidade diz respeito à obrigação de responder pelas ações próprias ou de outrem que esteja realizando atividade conforme determinação. A integridade está associada à conduta reta, à pessoa ética; está ligada à inteireza, a ser pleno, um caráter sem falhas. Portanto, responsabilidade e integridade estão intimamente associados à honestidade.

É estimulante ver que diferentes grupos têm percepção próxima da retomada de um valor que parecia enfraquecido na nossa sociedade. Pareceu mesmo que tínhamos nos tornado viciados em processos corruptivos e não percebíamos o mal que eles poderiam trazer à coletividade como um todo e a cada um de nós em particular.

Chegou a parecer que não tínhamos mais força para oferecer resistência, que a sapiência de Rui Barbosa ao afirmar que, ;de tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto; era incontestável e irreversível verdade. Parecíamos ter vergonha de ser honestos.

Alegra ver o resultado de pesquisa que aponta nova tendência. Quem sabe essa pequena semente germine a despeito dos maus-tratos do solo ao redor. Quem sabe Shakespeare nos inspire novamente para acreditar que ;nenhuma herança é tão rica quanto a honestidade;.

* General de Divisão R1, é assessor do Departamento de Educação e Cultura do Exército




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